09 junho 2016

Insônia

caralho, amanhã altas coisa pra fazê, quitá o carro, trocá o óleo, do you wanna bang?, socialzinha, fulano-de-tal todo desenhado, cara de embriaguez, noite gelada no centro, bareco, várias bera, as mesa de madêra da área externa, chute a gol, tôprajogo, grupo escolar dr. xavier da silva, estação plaza show, instituto versus xavier, professora vera, professora vera, busca no feice, professora vera morreu, rebouças, favelaéocaralho, quadra do colégio, chuvaradatododia, gotêra nos caderno, tão tudo gazeando lááááá fora jogando latinha, uns preso, tão fodido, viraram bandido, boliche no shops pra perdê o bv, me empresta cincão?, chuva fode, assistimo altas aula molhado, tudo alagado, ratazana, porão, tudo cuzão, tiro-de-papelzinho-cuspido-nos-tubo-das-caneta, apanhô na rua, altos chute no corpo polaco, altos tapa na cara, uma guria, vintecincoano, capaz?, é droga!, apure!, largada no sofá da sala, o sangue escorrendo, sujando a rôpa, pingando na lajota, os olho roxo latejando, chorochorochoro me pare de chorá que já passô, meee!, relógio na parede marcando quinze pra meia-noite, tem mais gelo em casa?, ma você me trinca as ideia, guria, trocá o gelo do roxo, lajota suja, o celular roubaram tamém?, a porta tá trancada? eles tão cas minha chave!, o passaúna, o belém, os atropelamento nas canaleta do expresso, a cachoêra na minha parede por causa das calha rebentada, mais um corpo morto que jogaram lá, lá no passaúna mêmo, alguém sumiu ca criança lá na região metropolitana e nunca que ninguém achô, merda, joão rafael tão lindo, nunca que ninguém achô, puuutz, o polícia me apareceu justo naquela hora massa que eu tava lá na parede!, bets, prego, meu pé tudo podre, uma sanguêra, precisava vê, menina do céu!, as vista tudo preta, altos ponto no postinho, meu pé pra cima, foi de-dá-dó mêmo, um tombão, futebol cos piá na rua de casa, eu cato no gol, eu que vou no gol!, foi pênalti ou não, porra?, nariz tudo quebrado, ma de novo, guria?, bola na cara, o piá mais capeta me joga com força, catei a bola bem no canto esquerdo e não deixei passá, ganhamo, chuuupa, seus lóque!, cê é massa, cê é muito massa, aquele filhodaputa tá me sacaneando, vai me ferrá, véi, vô perdê o interbairros, quê que é?, tá me tirando?, a voz dele na minha cabeça, pô, taly, pô, taly, pego a grana das férias e faço a primêra tattoo co rosto do meu vô miguel, eu vô ficá feliz pra caralho, e você?, e você não tem que se metê!, ele tá se fazendo, na hora agá sei lá, e se fosse só na parede?, essas bera todo dia tão me pondo mucho lôca, agilizando meus esquema mais ainda, mais ainda, cuca de banana, toucablusacachecol, pão caseiro da vó, pão francês do mercadinho, toucablusacachecol, pão-pão, pinhão-pinhão, fulano-de-tal ainda não me ligô, eu sou mêmo uma guria massa?, fala!, cê é um cara bacana, mêmo, de verdade, nem todo mundo te manjô, não vô fazê nada por enquanto, camisa 9 quando cê menos esperá, goool!, cadê aquele livro, mas putaquepariu, meus amigo sempre some cos meus livro, uns grito, quêquetácontecêno?, não parô os grito?, dois lôco na frente de casa, alguém começa a exorcizá, deve ser gente daquela igreja, sai!, sai!, saaaaaaaaai!, o cara tá urrando, deuzolivre, a conta de luz veio alta de novo, que merda, curitiba e esse frio da porra, prefiro o calor do caralho, fazê-o-quê, os cavalo, o ruffato, o drummond, os trabalho, as prova final, meu tececê sobre o caio fernando abreu, a banca, mas paaare que é último semestre da faculdade já?, aimeudeusmeacuda, queria mandá dizê pros amigo que logo acaba, que depois vai dá pra viajá por tudo e que é pra eles me esperá em algum lugar porque eu sempre me perco no centro e nos bairro, não interessa, viu, o vizinho palmeirense do andar de baixo, babaca, intrometido?, idiota?, não-faz-nada-da-vida-caralho?, ei talyta, ei talyta, temo que conversá sobre as benfeitoria do condomínio e, o poste da frente apagô de novo, borboleta treze, corre hoje!, megamania cap, tele, tele, tele-sena!, tá lôca? cê não pode fazê dessa, cê não pode sê assim, amélia é que era mulher de verdade, submarino, se cê for comigo no bar do alemão eu vô fazê nevá em curitiba de novo, ma jure?! putz, ainda não tem nada pendurado na parede da sala, se bem que sem nada eu ainda posso usá, uns lobo mau sempre se livrando das parada na política, as cara tudo fechada no tubo do vermelhão, um loco lá contou, tão assaltando direto aqui, centenário campo comprido tá tenso, se esperte, o apito do vigilante da rua, os quero-quero correndo atrás da gente, as araucária tudo derrubando pinhão, as capivara do barigui, é barulho de interbairros aqui na frente até de madrugada? silêncio, coisa estranha, umas voz e uns barulho vindo do apê dos vizinho, será que tão na parede?, podia, risos, um motoquêro lazarento para na frente do condomínio, fica fazendo gracinha, enfia esse acelerador no cu que eu preciso dormí!, xinga de volta, a moto arranca, capaaaz que aquele cara que é o síndico?, e síndico aparece assim, de boa?, o cara do condomínio da frente fica escutando som alto todo dia, umas música ruim, maior inferno, é solitário e precisa de felicidade na vida, diz-quê, diz-quê tanta coisa, tem uma velhinha que mora sozinha e sempre vêm uns piá de prédio pra visitá, nem sabia que tinha câmera no estacionamento, ai que esses lance de escada ainda me mata, véi, não pode sê independente, nem feminista, tem que saí da frente e ficá só atrás do hómi, lugar de mulher é na cozinha, grandes merda, dizem, eu mando se fodê, trabalha num escritório, de terno quase não reconheceu, baixô os olhos, uma vergooonha que nossa!, olhos castanhos, bem de boa, olhos castanhos, aquele cara sim é a tua cara, hein!, tô susse, fervo num lugar aí, não vô, falta de grana, não põe o dedo na minha cara!, é, é, então vai se fodê, uma raiva do djanho, me deixa quieta, quero tomá quentão em casa, pinhão, ficá debaixo da coberta, tá muuuiiiito frio, encaixa as perna na garrafa pet com água quentinha, não deixa faltá vinho, compra bera, compra pinga, compra leite, o leite aqui é leite quente, a cabeça não para de lembrá, o rosto sujo de sangue, a bola na cara, chuuupa!, as música ruim do vizinho, mas que bosta, ainda não dormi, quando cabá a faculdade eu vô voltá pro teatro, volto a atuá, para, por favor, para de me batê, não parô, um dia cê me joga na parede, eu quero jogo, camisa 9, adeus seleção brasilêra, adeus defesa do são paulo, faz falta o rogério ceni no gol, também sô furacão, e daí? tá ligado aquela sensação de prazer na arena da baixada, favelaéocaralho, aqui é atlético!, os grito rasgando, dá barato, fode a garganta, a cabeça, o corpo, a boca, pare, piá, tá me tirando?, se esperte, tem muito assalto, largo da ordem tá foda, meee vô acaba com a birra dessa guria me jogô lá no meio dos piá lá na rua lá na terra, não saí nunca mais, gritando e deixando as boneca pra lá, cê é uma guria massa, passaúna, canaleta, vô perdê o interbairros, me joga na parede, pô, taly, professora vera morreu e



Texto livremente inspirado no conto homônimo de Luiz Ruffato, que integra a obra Eles eram muitos cavalos (2001).

Exercício da disciplina de Literatura Brasileira IV, no último período do curso de Letras – Português e Inglês.

04 novembro 2012

Tem certas coisas que eu não sei dizer

"Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração
Silenciosamente, eu te falo com paixão"
Certas coisas - Lulu Santos


Eu não sei qual foi o momento exato em que me apaixonei por você – não sei em que momento eu me perdi e te encontrei. Deve ter sido naquele estúdio em uma das nossas noites de rock 'n' roll, um tal guitarrista tocando Sweet Child O'Mine e olhando pra mim. Talvez tenha sido um pouquinho de todas as vezes em que eu fui pra janela do quarto e você estava ali, tranquilo e pronto, esperando que eu te abrisse a porta com um sorriso do tamanho do mundo. Minha única certeza é a de que alguma coisa mudou quando, pela primeira vez, eu não quis te deixar ir embora da minha casa nem da minha vida – em um dos nossos dias 23.

Sempre foi complicado distinguir encantamento de paixão, paixão de amor. É tudo estrago do mesmo jeito, no fim é tudo saudade e falta da mesma forma. Encantamento, acho que senti quando você me abraçou em mais uma noite de festa, me acarinhando por muito tempo como se dissesse em silêncio a todos aqueles amigos que era a mim que você tinha escolhido. A paixão veio assim, de surpresa e toda desajeitada no trânsito, enquanto eu olhava pra você dirigindo o meu carro porque eu não sabia o caminho de volta pra casa. Você não percebeu, mas deitei no banco do passageiro e me senti uma mulher de sorte por te ter, literalmente, do meu lado. O amor, poxa, o amor eu só entendi quando olhei pro teu canto do sofá, quando saí na janela e você não tava em lugar nenhum.

Não tem mais tanta graça dirigir aquele carro porque sei que você não vai mais esquecer nada ali e pior: não vai precisar voltar pra buscar. Arrependimento por ter devolvido aquela pulseira com o teu nome gravado – ao menos assim, ela estaria até hoje na minha cabeceira como um pedacinho teu dentro desse quarto enorme... Ainda não consegui trocar o toque do celular, é o comecinho de Sweet Child a cada ligação que recebo e sei, não mais a tua.

Como se fosse ontem, vejo você sorrindo pra mim, encabulado quando a gente se conheceu – uma vergonha explícita, uma risada gostosa. Um infinito de coisas às quais muitos não se atentariam mas eu percebi: você tinha. E na ficha completa que te encaminharam com informações minhas, a mais importante foi: ela gosta dos detalhes. O jeito com que me ofereceu cerveja durante toda a noite, não porque me queria embriagada, mas porque me queria feliz. A falta de cuidado que teve com as palavras, vulgo "confiança à primeira vista", contando a vida toda (até o que eu não precisava saber, rs), os teus olhos brilhando quando falou sobre música. A conversa sobre banalidades, a forma implícita com que me deu liberdade pra fazer do teu banco do passageiro o meu lugar. Às vezes, a gente cala porque simplesmente não sabe o que dizer. Eu, sempre tão tagarela, fiquei quietinha vezemquando e você falava, falava e falava. Calei e ouvi porque queria tudo, menos estragar a coisa bonita que tava acontecendo no bar, na rua, no carro, no caminho pra casa. Porque a partir dali, qualquer lugar era bonito e alegre com você, até mesmo a frente do meu apartamento às 4 horas da manhã, ainda que eu nunca tivesse confessado isso antes.

E naquela noite, descobrimos que cupidos existem, coincidências também. Depois, dia após dia, entendemos que vale a pena esperar – e acreditar – porque o Universo recompensa aqueles que buscam o amor em silêncio, sabendo que de nada adianta desesperar. Mas acima de tudo, a vida sempre faz feliz àqueles que dão valor pro outro. E eu sei – não apenas porque você me disse isso algumas vezes – que você tava comigo assim, inteiro. Você tava comigo e não era pelo meu jeito mulherzinha. Era pelos detalhes mais bobos, aqueles dos quais eu mais tenho vergonha. Era pelas músicas que eu cantava sem perceber, por falar sozinha, por me aninhar no teu peito e me acalmar assim, quando a gente via qualquer coisa na tv. Tava comigo porque, de alguma forma, sabia que a hora mais feliz do meu dia era quando eu abria a porta e sorria pra te deixar entrar.

Queria que estivesse comigo pra ver que acordo esparramada na cama, talvez na tua, como se o emaranhado de lençóis fosse o meu mundo inteiro. Queria que continuasse comigo por todas as minhas musiquinhas no violão, minhas tentativas frustradas, envergonhadas, solitárias com as notas e com o Bon Jovi (haha). Queria que permanecesse pelo tom branquelo da minha pele, pra poder continuar me chamando de polaca enquanto cantava Cabelo Cor de Ouro no caminho pro parque. Queria que me ajudasse a lutar contra mim mesma, todas as vezes em que eu botasse tudo em jogo, com todo o medo do mundo, como se estivéssemos fazendo algo errado por estarmos juntos. Queria que me fizesse parar de botar defeito em tudo, contraditória e maluca quando tinha você menino e queria o homem; quando enxergava o homem mas te queria menino. Queria que você, Touro, acabasse com todas as tolices de Libra.

Além de qualquer motivo, há o mais difícil de todos. Queria que estivesse comigo porque descobri uma coisa, a mais importante de todas: eu te amo, de qualquer jeito e mesmo que você seja meu oposto, o meu avesso na vida. Te amo quando chega do trabalho todo cansado, mas trazendo o chocolate ou a cerveja que eu tanto gosto. Te amo porque às quartas, a gente via futebol juntos na tv – o jogo de domingo 02/12 ainda tá de pé? Te amo porque amor entre uma são-paulina e um corinthiano existe sim, dois bons amigos m'ensinaram que é possível (Mari e Will, obrigada por isso). Te amo até nas nossas longas conversas, quando você cala as minhas confusões verbais, me aquieta com aquele beijo e tira todo o meu fôlego, esqueço até porque estava confusa. Queria te amar deitado no chão da sala enquanto eu leria um livro no sofá, toda largada, short jeans, camiseta branca e um rabo de cavalo. Te amar mais ainda quando, do nada, me faria cócegas e me puxaria pro tapete da sala com você. Queria poder saber, um dia, que você conhece cada ponto do meu corpo, da minha força, das minhas fraquezas e até os locais mais sensíveis das minhas costas. Queria amar você por me acordar a cada dia, de um jeito diferente. Amar até a bagunça no teu quarto, comigo tentando te cuidar e arrumar tudo – você rindo e me puxando pra dentro porque eu não teria forças pra não entrar. Te amar quando cantasse qualquer música bem baixinho pra mim, amar as coisas ditas ao pé do meu ouvido - as bonitinhas e as impublicáveis. Amar um amor simples, como amei a flor que mandou com aquele bilhete inesperado, só pra que eu sorrisse por lembrar de você.

Nunca te disse, mas gostava de contar pras pessoas que a gente se encontrou porque, de certa forma, era um agradecimento à vida e um risco de esperança praqueles que continuam procurando. E não sinto vergonha nenhuma de, finalmente, abrir a guarda e te contar tudo isso também, de explanar sentimento. Tenho vergonha sim, é de não saber amar direito, em plenitude... De sentir tanta coisa que chega a sufocar, de... inconscientemente, inserir falhas onde não há só pra parar qualquer coisa bonita que queira crescer fora do meu controle. No fim das contas, eu, que sempre fui tão segura, sinto medo de não saber o que fazer quando os problemas chegarem e essa bolha feliz em que a gente viveu estoure – porque, um dia, sempre acaba estourando. Somos diferentes, acho que desaprendi a amar – será que ainda dá tempo de a vida ensinar o caminho de volta? Me avisa, qualquercoisasigoemfrenteassimbemrápido pra não sofrermos mais do que a gente aguenta.

E nossa história, surpreendente (lembra?) desde que nos conhecemos naquele bar há vários e vários meses. Intensa, por todos os próximos dias que viriam com a gente junto – seja de que jeito fosse. E mesmo se não for, esses mesmos dias passarão silenciosos contigo aqui, em falta e em cada canto de mim, como se eu nunca tivesse pedido pra que você fosse embora.

Mas sei lá, talvez não devesse te dizer tudo isso...


...não agora, quando já não adianta mais.

01 maio 2011

My Life Would Suck Without You

"Because we belong together now, yeah!
Forever united here somehow, yeah!
You got a piece of me, and honestly [...]"


E pensar que, quase sempre, sou eu quem cuida de você. Eu sou mulher, todos aqueles adjetivos meio machistas e "protetores" usados pra definir o "sexo frágil" aqui. De frágil, apenas o que eu não demonstro pra qualquer um – e você já viu.

Tá errado comparar personalidade forte com autossuficiência. Por baixo dessa teimosia, a dura casca que eu cultivei nesses anos todos, tem alguém que sim, também precisa de atenção (constantemente e mesmo que não assuma, demonstre nem peça).

Algumas mulheres são assim, tentativas de mascarar algo que deveria ser explícito. Não escondemos, deixamos no ar. Não explicamos, na esperança de que, por milagre, vocês entendam e venham simplesmente. Colo sem culpa, sem perguntas, sem ladainha. Sem riso, porque necessidade não é graça. Admitir que precisamos significa muito mais que a nudez do corpo, é nudez de alma.

Me despi pra você aos poucos. De todos e todas que passaram por mim, de todos os rostos que tive, nenhum foi tão certeiro quanto. Você me conhece quase inteira, sabe de cada fraqueza mesmo sem ter visto um ponto ou escrito uma linha em mim. Certas coisas são muito mais que puro corpo, repito: é preciso ser muito mulher pra acabar com os pudores internos, é essencial ser muito homem pra aceitar sem toque.

Cuida de mim, vai, eu tô pedindo. Como se eu ainda fosse aquela menina loirinha e você, aquele garotinho que queria construir o nosso castelo. Duas crianças de cinco anos fazendo planos que, mal sabiam elas, teriam longa data e curtíssima duração. Será? Pela primeira vez, abri mão do meu lado fodona pra escrever em letras garrafais: Sim, eu preciso e adoro cuidado. Choro ouvindo Chico Buarque, sou a típica menina dos vestidos leves e floridos, gosto de criança, canto todos os dias, leio sozinha no parque, assisto séries adolescentes, junto pessoas, só falo palavrão por costume, adoro cinema a qualquer hora, às vezes uso a bebida pra autoafirmação, sou voz e violão e só me sinto completa e viva num palco. Informações tão irrelevantes que nem precisava dizer, talvez ninguém acredite.

O que eu preciso fazer pra que você perceba que a minha delicadeza tá muito além do que os outros podem ver? Quanto vai demorar pra que você me observe de verdade, intuindo que eu também preciso muito de proteção? Até quando vou ter de assumir a postura ativa nisso tudo? Por quanto tempo ainda vou precisar aguentar e ser forte? Será que o destino vai continuar nos unindo "de forma irônica"? Creio que sim, mas é preciso saber o que fazer com isso. Você aproveitando essa sorte por quanto tempo mais? Não sei, acho que vou deixar o resto do texto em branco pra que você tente responder direito e sem mil desculpas, ao menos uma vez.

...

Ah, não dá. Te deixo responder isso quando souber de verdade o que eu sou em você. Para de ver em mim um exemplo! Me siga e me investigue por vontade, não por aprendizado. Entenda, sou mais passiva do que pensa, menos forte do que aparento. É que meu lado atriz sempre fala mais alto e acabo no caminho de sempre: sangue frio. Vontade de ajudar e mania de querer resolver teus problemas mesmo que isso me coloque, inevitável e explicitamente em um patamar inferior ao das paixões arrebatadoras. Te descrevo e guio teus próximos passos como se morasse aí dentro, visualizo partes que talvez só você conheça e me sinto feliz por ser útil. Aciono a psicóloga que existe em mim e olho pra você na minha frente, me falando novamente sobre um milhão de coisas aleatórias – mulher, álcool e uma vida em que não me insere no contexto. "Útil" é o que eu sou. Era, até hoje.

Se for pra reescrever alguma história, abandone o lápis – borracha demais pra sentimento de menos. Em mim e no meu corpo, adulto, só aceito caneta. Tatuagem definitiva. Amor e doação escritos à mão, tinta guache e lápis de cor compartilhados desde os tempos de colégio.

Tivemos e teremos várias outras pessoas que encantam e deixam marcas. Mas independente de qualquer história que apareça, o fato é: a gente se tem. Desde o primeiro dia, há dezoito anos quando juntamos as mãozinhas e fomos caminhar por aí diariamente. Isso é tão simples que, às vezes, se torna complicado de entender. É como misturar a saudade que sinto, a vontade de estar perto mais a maturidade que tenho pra racionalizar tudo isso. É ser tranquila o suficiente pra absorver a ausência – a idade passa, o carinho não.

E é isto: eu só deixo alguém adormecer aqui dentro desse jeito quando, de alguma forma inexplicável e bonita, vale a pena. O resto, jogo fora e mando embora, bato a porta e não relembro nunca mais. Contigo sempre foi diferente, você tem as chaves. Consegue entrar em qualquer cômodo de mim sempre que quiser e mesmo que eu não autorize.

Meu menino, meu garoto, meu homem feito. Disse que sou teu tesouro, um dos teus poucos orgulhos. E eu digo que você é parte da minha história, uma grande e singela parte de mim. Até daqui a pouco, até amanhã, até o ano que vem, eu não sei. Não importa, vamos envelhecer juntos e estaremos firmes um pro outro, um pelo outro, você me prometeu. Finjo que acredito, algum de nós vai cumprir.

Podemos relembrar o passado e planejar o futuro, mas o presente tá sendo feito. Por favor, capricha em cada detalhe, tenta avaliar esse tempo e tudo o que há nele porque o instante mais importante é o agora. E é exatamente nesse nosso tempo tão mal cuidado, regado a tormenta, que decido me afastar de você. Vou correr o mais rápido que puder pra te deixar um pouco sozinho aprendendo a dar o passo num tempo em que não faço parte do caminho.

Você vai absorver tudo o que leu, sair sem pensar e bater aqui na minha porta pra conversar. Mentira, você é homem. Ok, eu tô seguindo em frente. Enxerga meu cabelo de longe porque só assim vai perceber que antes de ser qualquer coisa tua, eu sou uma mulher 
– chateada, mas tentando não olhar pra trás.

04 novembro 2010

Pra ser sincera

"Beijo sem paixão
Crime sem castigo
Aperto de mãos
Apenas bons amigos"
Engenheiros do Hawaii



Encantamento não é paixão, mas faz estrago do mesmo jeito.

Dias atrás imaginei como seria se. Parei a frase – e o pensamento – aí. Não sou mulher de suposições e, sinceramente, nunca gostei do talvez. Sempre preferi a certeza do não mesmo quando quis o sim. Será que afirmativas existem pra nós dois?

Sou pilota de fuga, embora não tão forte quanto todos pensam – e pintam. Dizem que a força vem da fraqueza, venho aprendendo essa lição desde setembro, que, aliás, sempre foi extremamente complicado pra mim. Uma mistura de inferno astral com irritação, vai saber. Ou sou mesmo intensa, com unhas longas que facilmente atingiriam tua jugular de vez em quando.

De nós, ninguém nunca soube. Tenho de manter atitudes firmes, independentes e totalmente avessas a romantismo representado nas minhas flores favoritas, mas... uma música, um buquê, uma palavra, um carinho, um jantar que virou incontáveis cafés da manhã e foi aí que.

Sou tranquila o suficiente para degustar a existência calmamente, só não tenho tempo para esperar o momento certo de engolir. Alguém já te disse que a vida é agora? Nunca te pedi nada além de respeito, você escolheu me dedicar mais: atenção, cafuné, umas do Engenheiros e tantos beijos que me deixaram sem ar, sem fôlego, sem chão, sem forças. De gosto você entende, mas tua ruminação mental não me interessa.

À frente de toda a minha postura há o fato de que sou 
– muito  mulher e você é homem. Não seja só mais um quando pode ser o único. Será que você é mesmo um moleque e eu não percebi? Se, de repente, me descobrisse tão ingênua assim, acho que arrancaria esses olhos que me despem em público.

Não me faça pagar pelo que aconteceu e te fez mal. Não deixe que o nosso presente conturbado interfira num futuro possível. Não me prive de partilhar o teu riso porque você tem medo de chorar depois. Não deixe de se abrir comigo, não minta, não fique calado porque você tem o dom incrível de me deixar louca quando fica quieto. Eu quero atitude, novidade, intensidade, quero você comigo. Não seja idiota, não deixe que as tentativas se percam, não deixe isso virar poeira, não deixe o que somos virar nada.

Você não admite, mas também foge: do teu passado conturbado, dos teus problemas, do mundo, das contrapartidas. Mas tua maior fuga tem o meu nome porque no fundo, aí dentro, você sabe que ninguém consegue se esconder por muito tempo de uma energia maior, seja qual for. Nossa diferença é que, apesar de tentar controlar e organizar tudo, na vida você ocupa o banco do carona  é preciso dar a partida, virginiano.

Tua covardia repele começos e meios, eu sou feita de crimes perfeitos. Fins (in)justificáveis: nossa história acaba aqui, sem suspeitos.



De você eu não espero mais nada, continue enganando a si mesmo.
Prazer em vê-lo, até mais.

10 março 2010

Primeiro de março

"Escrevi frases soltas pelo chão
Esperei você dormir
Pra jurar minha paixão"
Ana Carolina - Dentro


Estranho falar de passado quando se tem a impressão – errada? – de que ele ainda não passou. Nasci sob o signo das indecisões, o signo social, rodeado e rodeando, que nem sempre foge à regra e acaba atrapalhado entre o próprio desvario burro do término. Mas ainda sou, no zodíaco, a balança que equilibra – e nela, lugar para dois, saudade por duas.

Isso não é um apanhado, há tanto para lembrar que não caberia num curto espaço de linhas, muito menos num lugar onde eu, mais inteira que metade, me divido ao meio entre o antes e o depois. Não importa, ainda temos o agora e o amanhã. Esse, cercado de quadrados coloridos cheios de significado e uma bailarina rodopiando quando uma caixinha especial é aberta. A lista é enorme, quase não cabe mesmo: de Novos Baianos a Skank, uma infinidade de músicas que a gente tem. Você já pensou nisso? Que qualquer letra que eu acompanhe tem muito de você? E aquele velho complô no rádio pra que eu cante mesmo que o mundo acabe, enfim, dentro de tudo que cabe em ti...

Continuo bebendo quase todas as noites, semana a semana, e em cada pessoa que conheço ou reencontro procuro um pouco de você. Natural, embora, obviamente, eu já soubesse que não encontraria nada sequer parecido. Certos gestos são singulares e, confesso, é muito difícil achar a tua leveza em alguém. Que bom, isso te torna única dentro e sobre mim com teu sorriso do tamanho do mundo, os cabelos que você nunca prende, um anel discreto e totalmente inverso aos meus brilhos exagerados, uma mochilinha minúscula em que não caberia metade das minhas coisas de mulherzinha... Desisto de buscar teu rosto nos outros e acabo achando teu perfume suave pelo quarto, tuas coisas pelos cantos e pedacinhos constantes de você pelos meus dias.

Espero que não se importe, às vezes é preciso escrever para juntar pedaços e eu escrevo para juntar vidas. Escrever é como abraçar, a diferença mais latente é que o escritor abraça a si mesmo já esperando o simplismo de quem o lê. A estação da escrita é o inverno mesmo que no começo de março, logo... busco um pouco de calor e saio por aí, sem fugas nem medos, atrás de amor.

Mesmo entre altos e baixos tivemos um ano firme, bonito, da gente. E quando me descobri realmente apaixonada por quem continua valendo a pena nem tive vergonha alguma de assumir tudo o que isso afirma, me percebi, também, incapaz de fazer algo que não fosse lutar por recomeços diários.

Milhares de coisas empilhadas, atividades pramanhã e decidi não fazer nada. Que o mundo se perca porque, agora e sempre, o mais importante é estar com você.

Meu Bem.

22 agosto 2009

Pé no Palco

"Em companhia de gravata, desodorante, cueca, sutiã e nenhum ser humano, pessoas com dor de garganta causada por coisas que não se diz mostram suas ideias solitárias até o pescoço."


Perfect Day, do Lou ReedPeople Are Strange, do Doors, All My Love, do Led Zeppelin, Nuvem Passageira/Sósereiseuseforsó, do Karnak e Should I stay or should I go?, do Clash: músicas-tema das primeiras peças da Nina atriz.


Gravatas coloridas, rostos pintados... Agonia Relaxada com Irritação e Maracujá.


Ainda consigo sentir na pele a primeira cena: elenco no chão, acordando de um constante piloto automático e se empurrando em silêncio com toda a força do mundo numa intensidade letárgica enquanto Oh, it's such a perfect day / I'm glad I spent it with you / Oh, such a perfect day / You just keep me hanging on tocava bem alto.

Ainda consigo resgatar a atmosfera da Bárbara e todo o seu subtexto, cada significado oculto ou implícito por trás de suas palavras e ações. Ainda seria capaz de reviver a gagueira, as manias e os movimentos contidos dessa mulher peculiar que enxergava a vida de longe, quase como testemunha do existir alheio. Ela, tão diferente de mim e a quem dei corpo e voz, seus óculos tortos, suas observações sobre as pessoas e o mundo, com seu fiel escudeiro sempre à mão: A mulher de trinta anos, de Balzac.


Todos aqueles maracujás abertos espalhados, o cheiro forte da fruta invadindo todo o espaço, o caos dos personagens apaziguado – e, ao mesmo tempo, alimentado animalescamente  pela passion fruit, o barulho da explosão de centenas de latas de cerveja em cima da gente no palco anunciando que aquela peça havia terminado. Mas nunca, nunca termina!


"Nada mostra o que queremos expressar!
Poderíamos ter uma conversa a sós?
Socorro! Por favor, eu gostaria de ficar sozinha.
E assim vai: hoje peço socorro,
amanhã exijo minha solidão."
S.Ó.S - do (sempre) Grupo Trufas de Teatro

09 março 2009

Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos

 

Para lembrar que meu existir é subjetivo.

Para lembrar de quem me enxerga muito maior do que sempre fui e serei – em Clarice e na vida.

21 outubro 2008

(re)trato

"Se a gente não tivesse feito tanta coisa
Se não tivesse dito tanta coisa
Se não tivesse inventado tanto
[...]
Se a gente não dissesse tudo tão depressa
Se não fizesse tudo tão depressa
Se não tivesse exagerado a dose"
Grand' hotel - Kid Abelha



Para guardar o texto que ganhei de aniversário. 

03 outubro 2008

Para ver as meninas brotando

Só quero dizer a você que te deixo e por mais que eu te queira demais, a vida não gosta de esperar, a vida é pra valer, a vida é pra levar. A você, só quero que continue aí, lendo Dulce Veiga e testando os limites desse jogo de palavras preu te descobrir aos poucos, leveza, confissão, impulso, ficar olhando e imaginar coisas que aconteceriam se. A você, ruiva, poxa, volta pra cá, te acolhe no meu ombro e aprende que é tudo um puta banho de água fria. A você, voa alto, voa imensamente alto e alcança os pontos onde eu ainda não consegui tocar – por você, tudo é passo, tudo eu posso. A você, mostra as pernas de novo nesse short xadrez, vai, deixa os pés descalços e as sandálias jogadas, me fala de libra como quem conhece meu zodíaco interno. A você, clareante, toma todos os meus tons de vermelho pra tua felicidade. A você, saia daqui, gente inconveniente não se abriga. A você que não m'escuta mais, acorda e vai engolir o mundo, agora! A você que nunca vai saber, eu te espreito todos os dias, sou das que sabe o que faz e mata vontades. A você, a viagem mais importante de todas, quando descobri que anjos vivem em São Paulo. A você, vamos deitar na grama e abraçar em todos os domingos até a velhice do corpo, ser Velma e Roxy em noites cheias de cor. A você, fecha os olhos, cai inteira, sem culpa e sem medo nessa coisa de se apaixonar – é que dor de amor não dói. A você, ô, a você eu só tenho a agradecer porque entendi mais de ser feliz, real, completa e simples depois que você apareceu. A você, quero que entenda que sentimento pela metade não se aceita. A você que transcendeu, todas as vezes em que precisei lembrar que você ainda existe em mim preu continuar vivendo. A você, loucureia, morena, loucureia! A você, leãozinho, me dá mais do teu sorriso, dos teus colares e da tua poesia, eu te cubro de calor. A você, o nascer e o pôr do sol, porque os teus cabelos loiros fazem o céu ter mais leveza e importância. A você, a gente ainda canta Cartola num boteco qualquer do país. A você, não jogue a culpa em mim pela tua ausência. A você, desculpa os meus maus jeitos e os meus sumiços. A você, faz voltar pra mim a tua voz suave e calma? A você, aguenta firme e continua em pé, eu te seguro forte. A você, todas as palavras que eu nunca vou conseguir dizer. A você, guardados, todos os meus livros e flores de quinze anos atrás. A você, todas as nossas doses de tequila, todos os nossos brindes durante todos esses anos lindos que você me deu e os dias de hoje que você me dá. A você, algumas saudades que eu não assumo, por puro orgulho (ou desistência). A você, muitas coisas pra contar e vários conselhos pra pedir, quero te mostrar que a porra-louca permaneceu. A você, o meu beijo de verdade e a única bossa que eu fiz nessa vida – mesmo que as coisas não terminem em samba.

10 agosto 2008

Click!

Meus grandes lábios, abertos a ti, sossegam. Teu gosto na minha boca, cuidado: paixão não é pra ser digerida.

De todos os nossos planos, restou uma viagem de avião que nunca vai ser de verdade. Meu medo de altura não permite longos períodos na Europa e sejamos francas: atividades que necessitem de boa vida financeira não são para mim. De todas as nossas literaturas, um inventário lindo e cheio de delicadezas. Sobre nossas escritas, cartas em letras legíveis – as minhas pequenas e azuis; as tuas, redondas e grandes, ocupavam grande parte das linhas e de mim. Vários risos tivemos. Vieram nossas besteiras, éramos presença de Anita constante e aquela cantora loira de soul. Éramos as nossas cervejas do primeiro dia, éramos os beijinhos estalados noite após noite. De todas as minhas saudades, são sempre os teus cabelos, o teu blush, os teus olhinhos estrelados e uns grandes pedaços de você, pequena. De todas as nossas brigas, de todos os meus poemas, de todas as tuas dúvidas, restou um quê de (fim). Ou nada.

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Coisa Mais Bonita,

Você é mais bonita que a flor, mas sinto. Nem o mel, nem Idgie, nem Ruth, nem teus brilhos em mim podem voltar atrás. A vida já não é mais tão doce, vinho quente só aos namorados, a primavera chega em setembro e nem sei se ainda haverá crescentes (lembra-te?). Álvaro de Campos para tempos ridículos, velhas bossas para um tempo velho, sou librianíssima em tempos de sempre. Às vezes, é melhor andar a pé e enxergar que opções também são escolhas. Tu fizeste a tua, pois bem: "viver é melhor que sonhar", continua cantando Elis. E o amor nem sempre é uma coisa boa.

22 julho 2008

Dos atravessamentos

Para guardar esse e-mail que recebi e me lembrar do que importa: as palavras.


28 junho 2008

Last

Um dia difícil eu tive. E não sei se as coisas só deram errado para que pudessem melhorar mais tarde ou se a única coisa que valeu foi depois, quando aquilo chegou. Toda a frustração das horas anteriores passou num segundo, quando a única coisa que eu quis foi te abraçar.

Achei que a chuva viesse hoje. Receei que o frio viesse mais forte porque não havia alguém que m'esquentasse o pescoço ou acarinhasse a nuca... Protegi-me com o cachecol preto, vesti uma blusa quente, escondi as mãos com luvas e calcei o All Star. Era branco, quase tão branco quanto a folha de papel em que eu t'escrevo agora.

Todas as minhas ações de hoje tinham um pouco de você. Todas as pessoas, todos os cantos, todos os encantos. E no meio de brigas sem propósito algum, você fez feliz quando, por um segundo, fechei os olhos e lembrei do primeiro dia em que eu m'encantei por você. E por esse sorriso gigante, essas bochechas rosadas, esse cabelo bonito, esse ciúme querido... Toda essa lista sem fim de pequeninas coisas tão somente suas, tão grandes para mim.

As ruas estavam cheias, elas realmente enchem de gente no inverno e eu sei o motivo: as pessoas se abraçam mais no inverno. Talvez para enganar o vento, talvez porque não tenham a vergonha que se vê no verão quando todos se afastam, o contato físico é infinitamente menor e não se vê a Rua XV cheia de formiguinhas abraçadas tomando vinho quente. Tudo tão bonito que chego a pensar: meus sentimentos só costumam aparecer no inverno. Um romantismo escondido curitibano que adora os cachecóis e detesta o calor exacerbado do verão.

Eu tinha um livro nas mãos – Aos meus amigos, uma história bonita  acaso as coisas demorassem e eu precisasse mesmo esperar. Tudo bem, esperas são realmente valiosas quando se espera por algo essencial.

Passava das oito horas, o céu iluminado, o vinho quente nas mãos dos namorados e eu – ali, lendo e tornando a espera ainda mais significativa. Quando chegou, embrulhado em fita vermelha, só consegui sorrir e agradecer. Se eu tivesse os teus olhinhos d'estrelas, eles teriam brilhado junto da rainha da noite. Sorri, e sei que esse sorriso podia iluminar mais que a lua porque era um sorriso de felicidade. Tive você ao alcance das mãos e dos olhos, até da voz se quisesse. Mas não consegui, você roubou todas as palavras que eu tinha e voltei para casa assim: calado. As pessoas olhavam e eu sabia, de alguma forma, que conseguiam ler o que eu pensava, admirando a cidade escurecer pela janela do ônibus: a vida é doce.

Não pedi que o tempo passasse rápido porque aprendi que a espera pode ser linda – e foi.
O tempo chegou agora, minutos atrás. Tempo em que eu quis, mais que todas as vezes, te abraçar. 
Te abraçar, meu maior amor de todos os invernos.

04 junho 2008

Poeminha de junho

longa vida
é o que se
leva

boa sorte
é o que me
traz

cada dia, uma
saudade

duas noites:
beijo a
mais

19 abril 2008

Oh Lord, won’t you buy me?

Eu deveria abrir a vodka e ligar trust in me, baby, give me time, gimme time, please, a littlemore time bem alto, mas preferi parar de beber e entregar os pontos. Tem gritos que o álcool não sufoca, a gente bebe mais e não importa se o chão é a rua ou o jardim de casa. Não importa, a embriaguez é a mesma e a tontura de viver permanece em que estado for. A única diferença perceptível fica escancarada no rosto: pessoas sãs carregam menos filosofia. A sanidade não permite divagações, a vida quer ser vivida, vamos ao que se deve.

Tanto que cansei, fecho os olhos e a alma fatigada, cama e dia seguinte. Renovo, sorrio, transbordo e recrio, um viva à pureza das águas. Viva Caio de cada dia, seus escritos não me faltarão, toda manhã é dia novo que cai em mim. Eu tombo e decido: hoje não bebo mais. Ontem não me seguraram, um tombo que doeu na carne, mas não foi a coisa mais dolorida que me aconteceu – palavra dói mais que asfalto quente na pele.

Descobri que não gosto tanto de chicletes coloridos em dias de sol nem de paçoquinhas a qualquer hora. Descobri que não entendo nada de literatura e que sinto receio de Nelson Rodrigues. Descobri que certas coisas fortes não precisam ser ditas com tanta dureza, é sempre bonito ter pitadas de sonho na boca. Descobri que sonhei e cansei, poesia só mora nos livros.

Paredes rabiscadas de histórias precisando de pintura nova e eu cheia de preguiça de pintar. Apagar coisas antigas não exige tempo nem prática, é preciso coragem. Há letras que apagam sozinhas e somem num passo de mágica de dentro da gente, são clicks instantâneos em quê.

— Sem mais babaquice, mulher, que a Janis tá passando com a 
Mercedes Benz pra te pegar.

15 março 2008

Luz

se valer viver pai-nosso,
paradoxo de Palco,
minha alma atriz valerá.

enquanto houver alguém além
e a Arte comigo,
algo em mim haverá.

10 fevereiro 2008

"E você também é Sophia, sabe?"

"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas."
Sophia de Mello Breyner


Para Nathália de Ávila em uma noite bêbada curitibana.

Ô Bailarina, queria ter braços longos pra te alcançar. Que os meus braços cresceram, mas continuaram pequenos, eles crescem e eu diminuo dentro desse mundo cheio de coisa. E eu só queria te abraçar, porque abraçar é dizer que se gosta, acontece que eu te amo. Acontece tanta coisa sempre, que dá vontade de ter tendo vontade de. Ai, essa coisa de corpo dormente que eu tenho, eu queria mesmo era sair do corpo, tu já saiu do corpo? Eu já, foi num dia no palco, eu dancei e só sei que foi assim, eu saí e depois voltei, foi bonito. Se eu te conhecesse, conhecesse mesmo, eu podia lembrar e até te levar comigo, a música era bonita e tudo bem, há tempos em que a gente deixa o palco um pouquinho, é aquela coisa de amar agora e guardar tudo pra depois – um dia eu entrego amor em saquinhos pras pessoas. Vou te dar uns dois pro caso, de um dia, faltar saquinho no mundo. Aí em Minas tem saquinho de amor com pão de queijo, eu te faço um com leiTE quenTE. Engraçado eu falar em leite agora, há dias que eu não bebo leite – devo estar bebendo cerveja demais. E eu saio do corpo, tem gente que não tem responsabilidade. Eu tenho, bebo e saio e volto, eu nunca caí. Só caio sã, aqueles tombos de amor que a gente aprende a cair logo criança ou quando um amigo empurra a gente e joga em algum lugar feito brinquedo que não quer mais. Mas sabe, Bailarina... quando tem música, o tombo é quase um passo de dança, coreografado, majestoso, cena final de filme francês. Hollywoodianos, desculpem, somos todos Amélie Poulain. É que eu queria te dizer um monte de coisa, mas a minha cabeça tá girando e eu não sei por onde começar, as coisas dizem e eu escrevo e meus olhos te veem, mas a tua voz de dentro eu nunca ouvi. E o teu nome tá sempre quando eu fico feliz ou quando eu fico triste ou quando eu sorrio ou quando eu choro, um choro assim, miúdo, calado e amuado. Lágrimas meio letradas, uma coisa que eu nem sei explicar, bêbados não explicam. Amor se explica? Sabe, que tem dias na vida da gente que vêm e mudam tudo, eu queria ter dias todo dia assim. Tu queria? Eu queria que a gente dançasse juntas, eu não sei dançar, mas quando a música toca e eu levanto os olhos e eu levanto os braços e eu levanto a alma, eu sou e eu quero, é o céu que fica chamando e eu quase alcanço, sabia? Acho que tu moras no céu e nunca me contou. Quando descer aqui pra terra, vem pra cá? Eu prometo que não bebo mais e que te toco todas as músicas da minha playlist e até te canto em todo o canto. Eu sei cantar, sabia? Sabia? Sabe, eu até te cantarolei Oswaldo Montenegro uma vez. E eu acho que foram duas, ou três, ou cinco, ou sei lá. Eu fico nervosa só de pensar que tô dizendo bobagem. Poxa, assim, depois que o álcool que me deram subiu, eu nem parágrafo sei fazer mais. Droga, eu gosto tanto de parágrafo e eles estão me chamando, mas eu abandonei, mas eu abandono todas as regras de escrita pra t'escrever, Bailarina. Tá tudo confuso, tá tudo desconexo e eu lembrei que, na vida, a gente tem que ter coesão. Esse troço aí eu nunca tive, sempre falavam disso nas aulas de Redação do cursinho, deve ter sido por isso que eu reprovei tantas vezes no vestibular da vida adulta. Saco, eu sei escrever, tô escrevendo pra alguém importante agora, isso é o que importa, né? Alguém importante que importa, só isso. Porque ninguém sabe o que significa pra mim e o que fez quando entrou em mim, assim, desse jeito escrevendo. E entrando. E sorrindo. E sendo. Porque sabe, ela só é, e eu sou só. Mas quando eu escrevo essas coisas pra ela, puxa, que parece que eu fico tão grande, dá até pralcançar Minas Gerais. E se eu der mais um passo, só um ou dois, eu entro dentro do coração, escuto o Tom e a Gal e o Oswaldo e os Caetanos e as Ninas e as amizades que mora nos amores cantarem lá dentro, bem dentro do coração bailarino musicado da menina que é gigante. Se eu fosse mais gente, eu diria que é gente assim que deixa o mundo mais bonito, só que eu ainda sou moça e ela é gigante, eu já te falei. Gigantes crescem mais rápido e quando a gente vê, lavaram o mundo de boniteza. Eu só sei lavar o rosto quando eu choro, sabe, eu tô lavando agora, o rosto cheio de saudade e cheio de saudade. De boniteza, eu só tenho o sentimento, eu acho que ele não precisa nem ser grande pra ser bonito, é só ele ser de verdade que já vale. E não é valor em ouro, não, é valor dentro da gente e pra fora dos outros, quer dizer, pra fora de mim e pra dentro da Bailarina. E que todas as paredes e todas as letras e todas as confissões e todos os bêbados e todas as vidas e todos os mundos vivam música e virem música e sejam música e cantem todo esse amor comigo porque ele é tão amor que quer rodopiamAR.

13 janeiro 2008

Retroativa

Tenta alguma coisa fora de si, mesmo quando só enxergam sorrisos e ainda há vazio dentro daquela coisa coração. Não sabe se algo realmente valeu a pena, fato é que tudo ensinou: sentimentos geralmente implicam confusões. Viver implica morrer de amor e, se contradições existem, são todas do outro. Já não entende, não esquece, não partilha, nega: uma cerveja, por favor. Se limões fazem caipirinhas e risadas na noite de Revéillon, mesa de bar hoje faz arrependimento e sensação de burrice estampada no rosto, em contraste com todo o rubro do resto que começou janeiro.

Ansiedade já não mais. Não rói as unhas nem acompanha seu crescimento, não deseja o esmalte vermelho nem nada, nada, nada, não; e hoje teve vontade de afogar as mágoas no passado. Chove forte, pingos gordos caem na janela e o vidro embaçado absorve a respiração de alguém que sobrevive naquele apartamento pequeno. O cheiro de terra invade os andares – mora no segundo, mas nunca soube direito onde vive.

Nada de nexo, e quem falou em nexo assim? Nunca existiu coerência, sentimento não é bola de futebol e ninguém merece chutes. Se existisse coesão aqui, a história não seria esta e, francamente, eu taria é bebendo cachaça na esquina. Acontece, meu bem, que pinga desce rasgando e, desse jeito, eu já tenho tudo que eu lembro. Essa coisa de beber drinkzinho em lounge de gente chique é pura balela, tá todo mundo com a mesma dor.

09 dezembro 2007

Menos de doer, mais de doar

É sempre assim quando penso que você vai voltar. Mas você nunca volta e eu continuo aqui, fantasiando todos os dias que faltam e que sobram pra eu te ver de novo. A única coisa errada nisso tudo é que, sendo a vida toda confusão, as datas também se confundem e eu deixo o tempo correr toda a saudade do mundo enquanto eu te espero num dia que nunca chega.

Quanto mais eu vejo o céu, azul, majestoso e ensolarado, mais enxergo você por perto. Deve estar voando por algum lugar onde a minha mão não alcance e, desse jeito, eu te imagino muito maior e bonita do que já é pra mim. Debruço na janela da sala pra poder sentir o teu vento mexendo nos meus cabelos curtos, o sol roubando teu brilho pra me iluminar.

Já fui criança, já achei que abraço era proteção do resto do mundo, já me despedi e já senti saudade. Amei, caí, levantei e amei outra vez. As dores dos tombos eram menores que as dores de amor – acho que não amar dói mais. E depois que o corpo cresceu, a alma quis seguir o caminho e contar o que umas tais bossas me fizeram nesses dias todos. Mas... precisa? Uns sentimentos que não morreram dentro de mim, pois coisas verdadeiras não morrem e, se não morrem, adormecem ou crescem. Eu cresci mais porque você existe.

Você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Tua voz tem o som mais bonito que eu já ouvi. Teu toque tem a doçura mais suave que eu já senti. Teu abraço tem o amor mais amado que já me amou. E os meus sorrisos são mais sorrisos com você por perto, meu samba é mais brasileiro se você canta comigo, minha noite é mais feliz se é você quem dirige o carro porque eu bebi demais. Meu dia só vira dia se eu abrir os olhos e pensar em você.

Junto às distâncias mais densas que eu já tive, tua falta é a mais desentranhada. E eu te amo mesmo em falta porque amor não é de se entristecer, é de se rimar.

22 novembro 2007

Das iniciais nomísticas

Dicionário Ninóstico da Língua Ninoquesa

A com as pernas no chão e o vento no cabelo.
B que é um D montado no outro! Criança quer ser gigante pra poder alcançar os passarinhos no azul.
C de arco em corpo, ele quer ser elástico!
D que abre o bocão e sorri.
E esticando os três braços. Ora essa, letra também faz alongamento!
F com as mãozinhas e os olhos a frente, bem além!
G de perninha pra dentro, quanta elegância...
H de equilíbrio entre duas varetas na perna de pau.
I de se esticar até a alma, pegar uma estrelinha e sorrir.
J todo blasé, vira de lado e não quer conversar.
K que sonha em ser V, abre os bracinhos em diagonal.
L é todo preguiçoso, adora sentar na grama pra ouvir história.
M de contorcionismo duplo, quer ensinar o N a ser bailarino!
N de contorcionismo no banco da praça porque palco é em qualquer lugar.
O que é primo distante do zero, sabia?
P que mostra a língua, ô letrinha malcriada!
Q é a letrinha namorada do O, usa vestido e deixa o cordão do tênis desamarrado.
R de pernas abertas e cabeça à frente em preparação pra correr a São Silvestre!
S que queria mesmo ter nascido corredor de Fórmula 1 pra correr em curva.
T se abrindo inteiro pra abraçar o mundo tooodo de uma vez.
U é letra deitada com pé e mão que apontam pro céu, feito guarda-chuva ao contrário.
V com as perninhas pra cima fazendo estrelinha!
X de duas letras I se cruzando no alfabeto.
Z que, de tão indeciso, não sabe se vai pra lá ou pra cá! E fica assim, todo arcado pros lados da página.
W que tem um segredo: só dois Vs de mãos dadas!
Y alcançando o infinito pra depois poder pousar.

01 novembro 2007

Librianíssima


Sou toda Bossa
e para mim não há Nara longe
nem Tom que cante pouco.
Mas naquele Samba que veio,
verde que te quero rosa,
tenho o dia quase cheio.

Por ser tanto e muitas,
que dure o tempo infinito
do Vinicius de Moraes.
Bebo cerveja na esquina e vou para os novos carnavais.

Sou balança, assim,
do contra.
E por mais que a vida não dê jeito,
confusão bonita é coisa pouca.

Sou muito sensível
para paixões não amenas.
Comigo é tudo
do-ci-nho,
irritante
e bem confesso, sem contracena.

14 outubro 2007

Todas as cartas de amor são...

"[...] Não seriam cartas de amor se não fossem"
Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa


Curitiba, 14 de outubro de 2007.

Minha querida,


É dia quatorze, já passaram anos, sinto saudade.

Quando eu era pequena não tinha muitos amigos. As coisas eram um pouco difíceis, mas eu sempre andava com os braços ocupados  livros de figura no bracinho direito e pipoca doce no bracinho esquerdo. Eu lembro bem, a senhora lembra? Todos os dias, os bracinhos ocupados e eu te levava uma flor.

Eu era a primeira da fila na hora do Hino Nacional, mas, a senhora sabe, eu não era a mais baixa da turma  talvez a mais interessada. Fecho os olhos e tenho aquela mesma imagem do "Ouviram do Ipiranga às margens pláááá-ci-das!", a bandeira hasteada e o vice-diretor alto, magro, postura firme e olhos atentos. O diretor baixinho, careca e Arnaldo sorrindo para mim. A senhora também sorria, mas era um sorriso do lado de dentro. Eu sabia, cantava e tinha as mãozinhas no peito em sinal de respeito e amor por tudo aquilo que era o país para mim. Mesmo com a pouca idade, amava toda aquela letra e melodia, o verde-e-amarelo lá no alto: Brasil, Paraná, Curitiba, escolinha.

Parte essencial da minha vida naquele lugar e ele ainda está lá, intacto às minhas lembranças mais bonitas  e às mais doloridas. O mesmo tio da pipoca que agora já é vovô, a mesma biblioteca que, agora, um pouco menor. Queria tanto morar naquela biblioteca! Junto das minhas figuras, da minha bruxinha, das prateleiras em que eu m'escondia quando ficava triste... Era lá que a senhora sempre m'encontrava, as lágrimas correndo de desgosto e vergonha por não ser a menina mais querida da turma, exclusão por ser a menina que sentava na carteira da frente, usava óculos, lia, escrevia, poetizava e quase não sorria quando havia crianças por perto.

A senhora lembra de quando eu precisei de aulas particulares da sua irmã porque não conseguia fazer continha de dividir com dois números na chave? Puxa, eu nunca fui boa com números, foram dias difíceis e a sua irmã era difícil também. Ah, desculpe, ela era muito bonita e inteligente e tudo e tal, mas é que ela perguntava a tabuada do sete e eu nem podia contar nos dedos. Ela tinha um nome estranho, os cabelos loiros e bonitos, mas, o resto, eu esqueci.

Eu nunca soube nada de Matemática, então, esses dias, sonhei com a minha primeira aula de verbos, foi tão bom! Ninguém tinha gostado porque Português era coisa que ninguém gostava. E eu respondia todas as perguntas e me sentia feliz-feliz porque é bom saber essas coisas de passado e presente e futuro, podia ser algo importante e eu tinha aprendido, uau! Eu nunca mais fui a mesma depois daquela aula sobre verbos...

E aquele piano bonito na sala da sua casa? Sempre disseram que eu tinha mãos de pianista, mas opinião de mãe não conta, acho eu. É que os meus dedos são compridos, mas só sei usá-los para segurar a caneta e fazer carinhos. Nem violão eu aprendi a tocar ainda, que vergonha! Aquele violão que eu ganhei, coitado, nunca tocou uma musiquinha.

Meus cabelos não são mais loirinhos e encaracolados. Já tiveram cor de laranja, de cereja, de vinho, já foram até pretos feito os seus. Os seus cabelos ainda são pretos? O seu rosto continua com a mesma expressão forte e doce ao mesmo tempo? A sua pele continua macia? O seu sorriso ainda tem brilho, as suas mãos ainda sabem fazer carinhos? E o seu abraço, que tamanho ele tem? Será que eu ainda consigo me enfiar no seu peito, mesmo depois de grande? E sua voz, continua fina, a risada baixa? Eu quero tanto ouvir a sua risada baixa logo...

Pois é, tantas coisas mudaram, garanto que meu sorriso e meus olhinhos fechados continuam os mesmos. As dores atenuaram, os livros ficaram maiores e já não têm tantas figuras. Confesso que aprendi a dividir com dois números na chave só por esses dias, mas nunca contei a ninguém. Ainda gosto de cantar, minha voz mudou um pouco e não preciso mais de óculos. Não rôo mais as unhas, acho que eu era muito nervosa nos nossos tempos de convivência... Troquei aquela pipoca doce do recreio por paçoquinhas a qualquer hora e não me confundo mais entre lado direito e esquerdo mesmo que, às vezes, seja muito difícil olhar para frente.

Sendo assim, às vezes eu olho para trás e enxergo tudo outra vez: a menina feia, franzina, quieta e estudiosa passava os dias ajudando os coleguinhas na colagem, pintava flores no papel e escrevia, a seu modo, cartinhas a quem amava. E sentia amor por tanta gente que as mãozinhas eram só sentimento e a vida era só uma constante vergonha de dizer.

Houve dias tristes, dias em que cartas e as suas estrelinhas de parabéns na folha do caderno não adiantaram  as outras crianças não sabiam ler corações naquela época. Eu abaixava a cabeça e tampava o rosto com os livros que tanto eram refúgio, sabia que ali havia amor puro e só. E sei que esse coração grande entende o que eu escrevo, sei sim.

Será que aquelas crianças associavam (falta de) beleza física e dor? Sempre busquei respostas nos livros, eles estão comigo até hoje. O menino que chutou meu peito com toda força e sem motivo foi embora, aquela camiseta branca foi lavada e a marca do tênis sumiu. O grupo que todos os dias roubava meus lanches, gritava, xingava e escondia minha lancheira vermelha nunca mais apareceu. A menina que riu de mim por anos e anos sumiu. Todos sumiram, a Literatura continua aqui enquanto eles devem estar em algum lugar chutando e rindo de alguém menos bobo, mais bonito que eu...

A vida, a senhora e o mundo sabem que sim, eu cresci. Posso encarar qualquer um desses rostos e hoje, certamente, nenhum deles é mais humano, sorridente nem inteligente que eu. Porque eu aprendi com os livros e a Clarice e o Vinicius e o Quintana e o Machado e o Drummond e a Cecilia, até com a Bruxa Onilda e não há melhores professores que eles, não. Eles, eles e a senhora m'ensinaram a ser gente. Obrigada por isso  eu nunca, na vida, vou esquecer.

É que agora, tia, as minhas mãozinhas finas cresceram e eu consigo bater  na alma, no coração, bem fundo, que é onde dói mais, muito mais.

Daqui a pouco será Quinze de Outubro. O doze, Dia das Crianças que Cresceram, já passou para virar Dia da Professora Vera dos Olhinhos de Jabuticaba.

A você, um amor imenso e os mesmos abraços e flores do primeiro dia, quinze anos atrás.

Talyta Antunes
(tua aluna no Pré-Escolar I e na 2ª série do Ensino Fundamental,
futura estudante de Letras - Português porque você existe.)


17 setembro 2007

Crescentes de setembro

Tu consegues ver? A noite é brilho de purpurina que vem dos teus olhos. Um brilho de criança, do último dia em que usei brilho colorido no papel. Acho que vês, pois, se abres o sorriso assim, é porque m'entendes e isso não te causas susto. É assim, feito o teu jeito pequeno que cabe na palma da mão.

Teus cabelos são fios de poesia e a lua é escritora, querendo te acompanhar. Pois se a lua bem entende de letras e cores, que dirá de amores! Lua poética delicada, há várias partes dela em quantos céus... Mas em nenhum céu, além do meu, há estrelas que brilhem em luzes de dia.

N'algum tempo dessa vida, alguém há de descobrir os vários raios de sol em olhos d'estrelas. E dentro dos teus olhos estrelados fechados, a cidade girando feito carrossel destrambelhado – meus braços rodando, alguma coisa nesses olhos que me deixa e me confunde e me decifra, eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos e a cidade ainda girando...

Falava-te de brilhos, um tempo de infância passado e luas-de-mel poetisas em dias eternos de núpcias. Luas que eram também doces, um pote açucarado de carinho – era o mel que brilhava ou a doçura que luzia? De nada sabe-se, em tudo confunde-se e eu apenas sentia as sutilezas e fugia (em vão) de clarões que conseguias por transparecer.

Todas as estrelas, observo e guardo para ti, em potes. Como perigos guardados, a fim de proteger-te de todas as abelhas do mundo, abraçar-te, Idgie e Ruth*. Se te fazes bem assim, simplesmente por brilhar em potes de mim, basta.

Chego para perto e tenho o (teu) gosto de mel: de todos os pontos noturnos ao alcance dos dedos, prefiro os musicados. Temos , , mi, , sol, , si e dez sentidos sentindo por si. Tocamos estrelas a quatro mãos, te alcanço no ritmo de nossas canções e meus olhos doidos, doidos, doidos são doidos por ti.

Os olhos fechados, doce, doce, doce... e és sim, meu grande pote de mel.


*Personagens do filme Tomates Verdes e Fritos