"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas."
Sophia de Mello Breyner
Para Nathália de Ávila, em uma noite bêbada curitibana:
Ô Bailarina, queria ter braços longos pra te alcançar. Que os meus braços cresceram, mas continuaram pequenos, eles crescem e eu diminuo dentro desse mundo cheio de coisa. E eu só queria te abraçar, porque abraçar é dizer que se gosta, acontece que eu te amo. Acontece tanta coisa sempre, que dá vontade de ter tendo vontade de. Ai, essa coisa de corpo dormente que eu tenho, eu queria mesmo era sair do corpo, tu já saiu do corpo? Eu já, foi num dia no palco, eu dancei e só sei que foi assim, eu saí e depois voltei, foi bonito. Se eu te conhecesse, eu podia lembrar e até te levar comigo, a música era bonita e tudo bem, há tempos em que a gente deixa o palco um pouquinho, é aquela coisa de amar agora e guardar tudo pra depois - um dia eu entrego amor em saquinhos pras pessoas. Vou te dar uns dois, pro caso de um dia, faltar saquinho no mundo. Aí em Minas tem saquinho de amor com pão de queijo, eu te faço um com leiTE quenTE. Engraçado eu falar em leite agora, há dias que eu não bebo leite - devo estar bebendo cerveja demais. E eu saio do corpo, tem gente que não tem responsabilidade. Eu tenho, bebo e saio e volto, eu nunca caí. Só caio sã, aqueles tombos de amor que a gente aprende a cair logo criança, ou quando um amigo empurra a gente e joga em algum lugar feito brinquedo que não quer mais. Mas sabe, Bailarina... Quando tem música, o tombo é quase um passo de dança, coreografado, majestoso, cena final de filme francês. Hollywoodianos, desculpem, somos todos Amélie Poulain. É que eu queria te dizer um monte de coisa, mas a minha cabeça tá girando e eu não sei por onde começar, as coisas dizem e eu escrevo e meus olhos te vêem, mas a tua voz, eu nunca ouvi. E o teu nome tá sempre quando eu fico feliz, ou quando eu fico triste ou quando eu sorrio ou quando eu choro, um choro assim, miúdo, calado e amuado. Lagriminhas letradas, uma coisa que eu nem sei explicar, bêbados não explicam. Amor se explica? Poxa, eu nunca te vi, eu nunca fiz cócegas e nem fiz rir, eu nunca. Sabe, que tem dias na vida da gente que vêm e mudam tudo, eu queria ter dias todo dia assim. Tu queria? Eu queria que a gente dançasse juntas, eu não sei dançar, mas quando a música toca e eu levanto os olhos e eu levanto os braços e eu levanto a alma, eu sou e eu quero, é o céu que fica chamando e eu quase alcanço, sabia? Acho que tu moras no céu e nunca me contou. Quando descer aqui pra Terra, vem pra cá? Eu prometo que não bebo mais e que te toco todas as músicas do meu Media Player e até te canto em todo o canto. Eu sei cantar, sabia? Sabia? Sabe que eu até te cantarolei Oswaldo Montenegro, uma vez. E eu acho que foram duas, ou três, ou cinco, ou é. Eu fico nervosa só de pensar que tô dizendo bobagem. Poxa, assim, depois que o álcool que me deram subiu, eu nem parágrafo, sei fazer mais. Droga, eu gosto tanto de parágrafo e eles estão me chamando, coitados, eu abandonei, mas eu abandono todas as regras de escrita pra t'escrever, Bailarina. Tá tudo confuso, tá tudo desconexo e eu lembrei que na vida, a gente tem que ter coesão. Esse troço, aí, eu nunca tive, sempre falavam disso no cursinho, deve ter sido por isso que eu reprovei duas vezes no vestibular. Saco, eu sei escrever, tô escrevendo pra alguém importante agora, isso é o que importa, né? Alguém importante que importa, é só isso. Porque ninguém sabe o que significa pra mim e o que fez quando entrou em mim, assim, desse jeito escrevendo. E entrando. E sorrindo. E sendo. Porque sabe, ela só é, e eu sou só. Mas quando eu escrevo essas coisas a ela, puxa, que parece que eu fico tão grande, dá até pr'alcançar Minas Gerais. E se eu der mais um passo, só um ou dois, eu entro dentro do coração, escuto o Tom e a Gal e o Oswaldo e os Caetanos e as Ninas e os amores cantarem lá dentro, bem dentro do coração bailarino musicado da menina que é gigante. Se eu fosse mais mulher, eu diria que é gente assim que deixa o mundo mais bonito, só que eu ainda sou moça e ela é gigante, eu já te falei. Gigantes crescem mais rápido e quando a gente vê, lavaram o mundo de boniteza. Eu só sei lavar o rosto quando eu choro, sabe, eu tô lavando agora, o rosto cheio de saudade e cheio de amor. De boniteza, eu só tenho o sentimento, eu acho que ele não precisa nem ser grande pra ser bonito, é só ele ser de verdade, que já vale. E não é valor em ouro, não, é valor dentro da gente e pra fora dos outros, quer dizer, pra fora de mim e pra dentro da Bailarina. E que todas as paredes e todas as letras e todas as confissões e todos os bêbados e todas as vidas e todos os mundos vivam música e virem música e sejam música e cantem todo esse amor comigo, porque ele é tão amor, que quer rodopiamAR.