11 Outubro 2009

Memórias de um casal urbano

“Madrugada chegou
O sereno caiu
Meu amor, de cansaço
Caiu nos meus braços
Sorriu e dormiu [...]”
Caetano Veloso

De todas as vezes em que a tive nos braços, ficaram duas certezas: a de que o batom jamais dura muito tempo na boca e a de que as bibliotecas são lugares irresistivelmente feitos para o amor. Nossos dias especialmente simples, nossas noites minuciosamente preparadas, ah. E nossas tardes de inverno, o vento atravessando a nuca e nossos abraços entrecortando os cachecóis... De tudo foram feitos dias e noites, tardes e acasos maravilhosamente inesquecíveis.

Tu te sentavas à mesa, majestosamente linda, educada e gentil. Eu sentava-me ao chão, sem boas maneiras só para que pudesses admirar-te altiva, pois era – e é – assim que merecias ser vista. Nosso tempo era esse, regado à vinho e sorrisos. Seriam duas vidas transversais que, de tanto cruzarem-se, criaram união? Não sei, talvez buscassem apenas companhia barata, um gesto agradável ou um olhar de malícia – mãos que calavam. Éramos como desconhecidos, redescobrindo linhas em cada corpo e demarcando caminhos em tempos de volúpia.

Houve aquela manhã em que eu, detido pela preguiça e preso ao calor dos cobertores, fechei os olhos e sonhei contigo. Espero que não tenhas esquecido, pois foram teus pequeninos gestos que trilharam em mim por todo aquele dia, estendendo teus carinhos noite afora. Acordei com teus dedos suaves passeando-me o corpo, o rosto, os lábios. Tua meninice encantando os ritos de minha pele, tua molecagem brincando de virar mulher em meus braços, tão ansiosos por.

Somos dois amalucados de vida, chego a pensar. Pois se eram silenciosas as nossas partidas, eram também caladas, as nossas chegadas. Era o silêncio do meio-termo, quando olhares diriam muito mais que todas as declarações de amor guardadas. Os beijos escandalosos e despudorados às duas da tarde na praça, os poemas suaves ao acordar-me, o cuidado que tinha ao fazer-te dormir, minha criança acuada, na cama em pose de feto. Deitava-me a teu lado, acarinhava teus cabelos e sabia que nada teria de ser bonito no dia que nascia porque dúvidas não são assim, tão bonitas. Mas eram elas que tornavam nossos caminhos a plenitude do não-saber, transformando nosso amor em paralela sem porquês.

Éramos apenas amor. Amor, e mais nada.

03 Outubro 2008

Para ver as meninas brotando

Só quero dizer a você que te deixo e por mais que eu te queira demais, a vida não gosta de esperar, a vida é pra valer, a vida é pra levar. A você, só quero que continue aí, lendo Dulce Veiga e testando os limites desse jogo de palavras pr’eu te descobrir aos poucos, leveza, confissão, impulso, ficar olhando e imaginar coisas que aconteceriam se. A você, ruiva, poxa, volta pra cá, te acolhe no meu ombro e aprende que é tudo um puta banho de água fria. A você, voa alto, voa imensamente alto e alcança os pontos onde eu ainda não consegui tocar - por você, tudo é passo, tudo eu posso. A você, mostra as pernas de novo nesse short xadrez, vai, deixa os pés descalços e as sandálias jogadas, me fala de Libra como quem conhece meu zodíaco interno. A você, clareante, toma todos os meus tons de vermelho pra tua felicidade. A você, saia daqui, gente inconveniente não se abriga. A você que não m’escuta mais, acorda e vai engolir o mundo, agora! A você que nunca vai saber, eu te espreito todos os dias, uma atriz sabe o que faz e disfarça vontades. A você, a viagem mais importante de todas, quando descobri que anjos vivem em São Paulo. A você, vamos deitar na grama e abraçar em todos os domingos até a velhice do corpo, ser Velma e Roxy em noites cheias de cor. A você, fecha os olhos, cai inteira, sem culpa e sem medo nessa coisa de se apaixonar - é que dor de amor não dói. A você, ô, a você eu só tenho a agradecer porque entendi mais de ser feliz, real, completa e simples depois que você apareceu. A você, quero que entenda que sentimento pela metade não se aceita. A você que transcendeu, todas as vezes em que precisei lembrar que você ainda existe em mim pr'eu continuar vivendo. A você, loucureia, morena, loucureia! A você, leãozinho, me dá mais do teu sorriso, dos teus colares e da tua poesia, eu te cubro de calor. A você, o nascer e o pôr-do-sol, porque os teus cabelos loiros fazem o céu ter mais leveza e importância. A você, a gente ainda canta Cartola num boteco qualquer do país. A você, não jogue a culpa em mim pela tua ausência. A você, desculpa os meus maus-jeitos e os meus sumiços. A você, faz voltar pra mim, a tua voz suave e calma? A você, agüenta firme e continua em pé, eu te seguro forte. A você, todas as palavras que eu nunca vou conseguir dizer. A você, guardados, todos os meus livros e flores de quinze anos atrás. A você, todas as nossas doses de tequila, todos os nossos brindes durante todos esses anos lindos que você me deu e os dias de hoje que você me dá. A você, algumas saudades que eu não assumo, por puro orgulho – ou desistência. A você, muitas coisas pra contar e vários conselhos pra pedir, quero te mostrar que a porra-louca permaneceu. A você, o meu beijo de verdade e a única bossa que eu fiz nessa vida, mesmo que as coisas não terminem em samba.

24 Agosto 2008

Click!

Meus grandes lábios abertos a ti, sossegam.
Teu gosto na minha boca, cuidado: paixão não é pra ser digerida.

De todos os nossos planos, restou uma viagem de avião que nunca vai ser de verdade. Meu medo de altura não permite longos períodos na Europa e sejamos francas: atividades que necessitem boa vida financeira não são para mim. De todas as nossas literaturas, um livro lindo e cheio de delicadezas. Sobre nossas escritas, cartas em letras legíveis - as minhas pequenas e azuis. As tuas redondas e grandes ocupavam grande parte das linhas e de mim. Vários risos tivemos. Vieram nossas besteiras, éramos presença de Anita constante e a cantora loira de Soul. Éramos as nossas cervejas do primeiro dia, éramos os beijinhos estalados noite após noite. De todas as minhas saudades, são sempre os teus cabelos, o teu blush, os teus olhinhos estrelados e uns grandes pedaços de você, pequena. De todas as nossas brigas, de todos os meus poemas, de todas as tuas dúvidas, restou um quê de (fim).

Ou nada.

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Coisa Mais Bonita,

Você é mais bonita que a flor, mas sinto. Nem o mel, nem Idgie, nem Ruth, nem teus brilhos em mim podem voltar atrás. A vida já não é mais tão doce, vinho quente só aos namorados, a primavera chega em Setembro e nem sei se ainda haverá crescentes (lembra-te?). Álvaro de Campos para tempos ridículos, velhas bossas para um tempo velho, sou librianíssima em tempos de sempre. Às vezes, é melhor andar a pé e enxergar que opções são também, escolhas. Tu fizeste a tua, pois bem: viver é melhor que sonhar, continua cantando Elis. E o amor, nem sempre, é uma coisa boa.

Nii,
Dez de Agosto de 200
8

28 Julho 2008

Oh Lord, won’t you buy me?

Eu deveria abrir a vodka e ligar trust in me, baby, give me time, gimme time, please, a littlemore time bem alto, mas preferi parar de beber e entregar os pontos. Tem gritos que o álcool não sufoca, a gente toma mais e não importa se o chão é a rua ou o jardim de casa. Não importa, a embriaguez é a mesma e a tontura de viver permanece em que estado for. A única diferença perceptível fica escancarada no rosto: pessoas sãs tornam-se menos filosóficas. O tempo não permite que existam divagações, a vida quer ser vivida e é o que se deve.

Tanto que cansei, fecho os olhos e a alma fatigada, vou pra cama e acordo só no dia seguinte. Renovo, sorrio, transbordo e recrio, viva o suco. Viva Caio de cada dia, toda manhã é um dia novo que cai em mim. Eu tombo e decido: amanhã não bebo mais. Não me seguraram ontem, o tombo doeu na carne, mas não foi a coisa mais dolorida que m’aconteceu, que pena. Palavra dói mais que asfalto de rua na pele.

Descobri que não gosto mais de chicletes coloridos em dia de sol, nem de paçoquinhas a qualquer hora. Descobri que não entendo nada de literatura e sinto receio de Nelson Rodrigues. Descobri que há certas coisas fortes que não precisam ser ditas com tanta dureza, é sempre bonito ter pitadas de sonho no que se faz, embora sonhos cansem, um dia. Descobri que sonhei e cansei.

Friozinho, algumas folgas no trabalho e cachecóis dispostos a sair do armário. Paredes precisando de pintura nova e eu, cheia de preguiça de pintar. Apagar coisas antigas não exige tempo ou prática, mas sim, disposição. Há letras que apagam sozinhas e somem num passo de mágica de dentro da gente. São clicks instantâneos em quê.

Sem mais babaquice, mulher, que a Mercedes Benz da Janis tá passando pra te pegar.

(Dezenove de Abril de 2008.)

26 Junho 2008

Last Request

Um dia difícil, eu tive. E não sei se as coisas só deram errado para que pudessem melhorar mais tarde ou se a única coisa que valeu foi depois, quando ela chegou. Toda a frustração das oito horas anteriores às oito da noite passou num segundo, quando a única coisa que eu quis foi te abraçar.

Achei que a chuva viesse hoje. Receei que o frio viesse mais forte porque não havia ninguém que m’esquentasse o pescoço ou acarinhasse a nuca... Protegi-me com o cachecol preto, vesti uma blusa quente e vermelha, escondi as unhas também vermelhas com luvas e calcei o All Star. Era branco, quase tão branco quanto a folha de papel em que eu t’escrevo agora.

Todas as minhas ações de hoje tinham um pouco de você. Todas as pessoas, todos os cantos, todos os encantos. E no meio de brigas sem propósito algum, você fez feliz quando, por um segundo, fechei os olhos e lembrei do primeiro dia em que eu m’encantei por você. E por esse sorriso gigante, essas bochechas rosadas, esse cabelo bonito, esse ciúme querido... Toda essa lista sem fim de pequeninas coisas tão somente suas, tão grandes para mim.

As ruas estavam cheias, elas realmente enchem de gente no inverno e eu sei o motivo: as pessoas se abraçam mais no inverno. Talvez para enganar o vento, talvez porque não tenham a vergonha que se vê no verão quando todos se afastam, o contato físico é infinitamente menor e não se vê a Rua XV cheia de formiguinhas abraçadas tomando vinho quente. Tudo tão bonito que chego a pensar: meus sentimentos só costumam aparecer no inverno. Um romantismo escondido curitibano que adora os cachecóis e detesta o calor não-humano do verão.

Eu tinha um livro nas mãos ("Aos Meus Amigos", uma história bonita), acaso as coisas demorassem e eu precisasse mesmo esperar. Tudo bem, esperas são realmente valiosas quando se espera por algo tão essencial. E não importa a altura, o peso, a quantidade e nem ao menos o conteúdo do que se espera. Se houver carinho, se houver sentido, espera-se até o ar.

Passava das oito horas, a lua no céu, o vinho quente nas mãos dos namorados e eu. Ali, lendo e tornando a espera ainda mais bonita. E quando chegou, só consegui sorrir e agradecer. Se eu tivesse os teus olhinhos d’estrelas, eles teriam brilhado junto da lua no céu. Sorri, e sei que esse sorriso podia iluminar mais que o sol porque era um sorriso de felicidade. Tive você ao alcance das mãos e dos olhos, até da voz, se quisesse. Mas não consegui, você roubou todas as palavras que eu tinha e voltei para a casa assim, calada. As pessoas olhavam e eu sabia de alguma forma que conseguiam ler o que eu pensava, admirando a cidade escurecer pela janela do ônibus: a vida é doce.

Não pedi que o tempo passasse rápido porque aprendi que a espera pode ser linda - e realmente foi. O tempo chegou e foi agora, há alguns minutos atrás. Tempo em que eu quis, mais que todas as vezes,
te abraçar.

Te abraçar, meu maior amor de todos os invernos.

Nii

04 Junho 2008

Poeminha de Junho

longa vida
é o que se
leva

boa sorte
é o que me
traz

cada dia, uma
saudade

duas noites:
beijo a
mais

09 Maio 2008

Ah, insensatez...

"...que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado..."

do Tom, do Vinicius, da Nara, da Takai



Acordou sentindo-se ridículo. E de tanto achar, teve a certeza de que estava realmente sendo. Depois de pouco ter dormido, abriu os olhos e o primeiro pensamento do dia foi dedicado à menina: seu rosto iluminado de sorriso, seu sorriso feito um sol. E os cabelos - ah, os cabelos! - longos, tão longos que Rapunzel seria pouco.
Puxa, essa menina que não lhe saía mais do pensamento, ele queria mais é tê-la nos braços. Era pena que (ainda) a tivesse em algum lugar escondido no coração. E isso, ele não queria, não queria ser um bobo. Bobo, era. Procurava a menina e seus cabelos e suas bochechas e seus sorrisos e suas mãos e sua voz em cada canto, em cada gesto alheio, em cada lembrança viva. Sabia que, um dia, a menina lhe sairia de dentro - não sabia quando, ora.
O tempo passou todo sem cores, devia ser porque a menina não estava perto e assim, todos os dias eram de frio e de chuva e de cinza. De nada adiantava o algodão-doce, os risos amigos ou a felicidade em que estava todos os dias. Alegria de verdade vem de dentro e dentro dele, a alegria só ocupava a metade. O resto era da menina e não podia ser feliz sozinho...
Esqueci de dizer, ela tinha olhos d'estrelas! E o menino orgulhava-se, porque nenhuma outra pessoa no mundo tinha olhinhos d'estrelas - estrelado era quem fosse daquela menina. Ele não era, passava os dias todos buscando seu brilhozinho encantado. Bonito, não é? Não, se as estrelas fossem de longe.
Ontem, o tal menino virou gente grande. Na cama com seus cobertores quentinhos, decidiu que, a partir daquela noite, deixaria de sonhar com estrelas: brilharia com o sol e sorriria, porque é assim que se faz coisas de amor ridículo.

E ridículo, é. Ridícula, a menina. Ridículo, esse sentimento. Ridículo seja tudo isso.

03 Maio 2008

Velhas Bossas

Aprendi a t'escrever de olhos fechados.
Hoje acordei sem jeito, sem modo, sem tempo. Quis ouvir a voz de alguém conhecido, encontrar ares coloridos e bochechas rosadas de blush. Tanto que corri, cheguei às margens do rio que correu assim, sem fim.

Saudade fez um samba, a culpa é sua. O samba é meu.

(Doze-de-Setembro-de-dois-mil-e-sete.)

15 Março 2008

Luz


se valer viver
pai-nosso,
paradoxo de palco

minha alma atriz
valerá












enquanto houver
alguém, aquém
e a arte, comigo

algo em mim
haverá

10 Fevereiro 2008

"E você também é Sophia, sabe?"

"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas."
Sophia de Mello Breyner

Para Nathália de Ávila, em uma noite bêbada curitibana:

Ô Bailarina, queria ter braços longos pra te alcançar. Que os meus braços cresceram, mas continuaram pequenos, eles crescem e eu diminuo dentro desse mundo cheio de coisa. E eu só queria te abraçar, porque abraçar é dizer que se gosta, acontece que eu te amo. Acontece tanta coisa sempre, que dá vontade de ter tendo vontade de. Ai, essa coisa de corpo dormente que eu tenho, eu queria mesmo era sair do corpo, tu já saiu do corpo? Eu já, foi num dia no palco, eu dancei e só sei que foi assim, eu saí e depois voltei, foi bonito. Se eu te conhecesse, eu podia lembrar e até te levar comigo, a música era bonita e tudo bem, há tempos em que a gente deixa o palco um pouquinho, é aquela coisa de amar agora e guardar tudo pra depois - um dia eu entrego amor em saquinhos pras pessoas. Vou te dar uns dois, pro caso de um dia, faltar saquinho no mundo. Aí em Minas tem saquinho de amor com pão de queijo, eu te faço um com leiTE quenTE. Engraçado eu falar em leite agora, há dias que eu não bebo leite - devo estar bebendo cerveja demais. E eu saio do corpo, tem gente que não tem responsabilidade. Eu tenho, bebo e saio e volto, eu nunca caí. Só caio sã, aqueles tombos de amor que a gente aprende a cair logo criança, ou quando um amigo empurra a gente e joga em algum lugar feito brinquedo que não quer mais. Mas sabe, Bailarina... Quando tem música, o tombo é quase um passo de dança, coreografado, majestoso, cena final de filme francês. Hollywoodianos, desculpem, somos todos Amélie Poulain. É que eu queria te dizer um monte de coisa, mas a minha cabeça tá girando e eu não sei por onde começar, as coisas dizem e eu escrevo e meus olhos te vêem, mas a tua voz, eu nunca ouvi. E o teu nome tá sempre quando eu fico feliz, ou quando eu fico triste ou quando eu sorrio ou quando eu choro, um choro assim, miúdo, calado e amuado. Lagriminhas letradas, uma coisa que eu nem sei explicar, bêbados não explicam. Amor se explica? Poxa, eu nunca te vi, eu nunca fiz cócegas e nem fiz rir, eu nunca. Sabe, que tem dias na vida da gente que vêm e mudam tudo, eu queria ter dias todo dia assim. Tu queria? Eu queria que a gente dançasse juntas, eu não sei dançar, mas quando a música toca e eu levanto os olhos e eu levanto os braços e eu levanto a alma, eu sou e eu quero, é o céu que fica chamando e eu quase alcanço, sabia? Acho que tu moras no céu e nunca me contou. Quando descer aqui pra Terra, vem pra cá? Eu prometo que não bebo mais e que te toco todas as músicas do meu Media Player e até te canto em todo o canto. Eu sei cantar, sabia? Sabia? Sabe que eu até te cantarolei Oswaldo Montenegro, uma vez. E eu acho que foram duas, ou três, ou cinco, ou é. Eu fico nervosa só de pensar que tô dizendo bobagem. Poxa, assim, depois que o álcool que me deram subiu, eu nem parágrafo, sei fazer mais. Droga, eu gosto tanto de parágrafo e eles estão me chamando, coitados, eu abandonei, mas eu abandono todas as regras de escrita pra t'escrever, Bailarina. Tá tudo confuso, tá tudo desconexo e eu lembrei que na vida, a gente tem que ter coesão. Esse troço, aí, eu nunca tive, sempre falavam disso no cursinho, deve ter sido por isso que eu reprovei duas vezes no vestibular. Saco, eu sei escrever, tô escrevendo pra alguém importante agora, isso é o que importa, né? Alguém importante que importa, é só isso. Porque ninguém sabe o que significa pra mim e o que fez quando entrou em mim, assim, desse jeito escrevendo. E entrando. E sorrindo. E sendo. Porque sabe, ela só é, e eu sou só. Mas quando eu escrevo essas coisas a ela, puxa, que parece que eu fico tão grande, dá até pr'alcançar Minas Gerais. E se eu der mais um passo, só um ou dois, eu entro dentro do coração, escuto o Tom e a Gal e o Oswaldo e os Caetanos e as Ninas e os amores cantarem lá dentro, bem dentro do coração bailarino musicado da menina que é gigante. Se eu fosse mais mulher, eu diria que é gente assim que deixa o mundo mais bonito, só que eu ainda sou moça e ela é gigante, eu já te falei. Gigantes crescem mais rápido e quando a gente vê, lavaram o mundo de boniteza. Eu só sei lavar o rosto quando eu choro, sabe, eu tô lavando agora, o rosto cheio de saudade e cheio de amor. De boniteza, eu só tenho o sentimento, eu acho que ele não precisa nem ser grande pra ser bonito, é só ele ser de verdade, que já vale. E não é valor em ouro, não, é valor dentro da gente e pra fora dos outros, quer dizer, pra fora de mim e pra dentro da Bailarina. E que todas as paredes e todas as letras e todas as confissões e todos os bêbados e todas as vidas e todos os mundos vivam música e virem música e sejam música e cantem todo esse amor comigo, porque ele é tão amor, que quer rodopiamAR.