04 novembro 2012

Têm certas coisas que eu não sei dizer

"Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente, eu te falo com paixão..."


Certas Coisas - Lulu Santos




Eu não sei qual foi o momento exato em que me apaixonei por você - não sei em que momento eu me perdi e te encontrei. Deve ter sido naquele estúdio em uma das nossas noites de Rock'n Roll, um tal guitarrista tocando "Sweet Child O'Mine" e olhando pra mim. Talvez tenha sido um pouquinho de todas as vezes em que eu fui pra janela do quarto e você estava ali, tranquilo e pronto, esperando que eu te abrisse a porta com um sorriso do tamanho do mundo. Minha única certeza é a de que alguma coisa mudou quando, pela primeira vez, eu não quis te deixar ir embora da minha casa nem da minha vida - em um dos nossos dias 23.

Sempre foi complicado distinguir encantamento de paixão, paixão de amor. É tudo estrago do mesmo jeito; no fim é tudo saudade e falta da mesma forma. Encantamento, acho que senti quando você me abraçou em mais uma noite de festa, me acarinhando por muito tempo como se dissesse em silêncio à todas aqueles amigos que era a mim que você tinha escolhido. A paixão veio assim, de surpresa e toda desajeitada no trânsito, enquanto eu olhava pra você dirigindo o meu carro porque eu não sabia o caminho de volta pra casa. Você não percebeu, mas deitei no banco do passageiro e me senti uma mulher de sorte por te ter, literalmente, do meu lado. O amor, poxa, o amor eu só entendi quando olhei pro teu canto do sofá, quando saí na janela e você não 'tava em lugar nenhum.


Não tem mais tanta graça dirigir aquele carro porque sei que você não vai mais esquecer nada ali e pior: não vai precisar voltar pra buscar. Arrependimento por ter devolvido aquela pulseira com o teu nome gravado - ao menos assim, ela estaria até hoje na minha cabeceira como um pedacinho teu dentro desse quarto enorme... Ainda não consegui trocar o toque do celular, é o comecinho de Sweet Child a cada ligação que recebo e sei, não mais a tua.


Como se fosse ontem, vejo você sorrindo pra mim, encabulado quando a gente se conheceu - uma vergonha explícita, uma risada gostosa. Um infinito de coisas às quais muitos não se atentariam mas eu percebi: você tinha. E na ficha completa que te encaminharam com informações minhas, a mais importante foi: ela gosta dos detalhes. O jeito com que me ofereceu cerveja durante toda a noite, não porque me queria embriagada, mas porque me queria feliz. A falta de cuidado que teve com as palavras, vulgo "confiança à primeira vista", contando a vida toda (até o que eu não precisava saber, rs), os teus olhos brilhando quando falou sobre música. A conversa sobre banalidades, a forma implícita com que me deu liberdade pra fazer do teu banco do passageiro, o meu lugar. Às vezes, a gente cala porque simplesmente não sabe o que dizer. Eu, sempre tão tagarela, fiquei quietinha vezemquando e você falava, falava e falava. Calei e ouvi porque queria tudo, menos estragar a coisa bonita que 'tava acontecendo no bar, na rua, no carro, no caminho pra casa. Porque a partir dali, qualquer lugar era bonito e alegre com você, até mesmo a frente do meu apartamento às 4 horas da manhã, ainda que eu nunca tivesse confessado isso antes.

E naquela noite, descobrimos que cupidos existem, coincidências também. Depois, dia após dia, entendemos que vale a pena esperar - e acreditar - porque o Universo recompensa aqueles que buscam o amor em silêncio, sabendo que de nada adianta desesperar. Mas acima de tudo, a vida sempre faz feliz àqueles que dão valor pro outro. E eu sei - não apenas porque você me disse isso algumas vezes - que você 'tava comigo assim, inteiro. Você 'tava comigo e não era pelo meu jeito mulherzinha. Era pelos detalhes mais bobos, aqueles dos quais eu mais tenho vergonha. Era pelas músicas que eu cantava sem perceber, por falar sozinha, por me aninhar no teu peito e me acalmar assim, quando a gente via qualquer coisa na tv. 'Tava comigo porque, de alguma forma, sabia que a hora mais feliz do meu dia era quando eu abria a porta e sorria pra te deixar entrar.

Queria que estivesse comigo pra ver que acordo esparramada na cama, talvez na tua, como se o emaranhado de lençóis fosse o meu mundo inteiro. Queria que continuasse comigo por todas as minhas musiquinhas no violão, minhas tentativas frustradas, envergonhadas, solitárias com as notas e com o Bon Jovi (haha). Queria que permanecesse pelo tom branquelo da minha pele, pra poder continuar me chamando de polaca enquanto cantava "Cabelo Cor de Ouro" no caminho pro parque. Queria que me ajudasse a lutar contra mim mesma, todas as vezes em que eu botasse tudo em jogo, com todo o medo do mundo, como se estivéssemos fazendo algo errado por estarmos juntos. Queria que me fizesse parar de botar defeito em tudo, contraditória e maluca quando tinha você menino e queria o homem; quando enxergava o homem mas te queria menino. Queria que você, Touro, acabasse com todas as tolices de Libra.

Além de qualquer motivo, há o mais difícil de todos - queria que estivesse comigo porque descobri uma coisa, a mais importante de todas: eu te amo, de qualquer jeito e mesmo que você seja meu oposto, o meu avesso na vida. Te amo quando chega do trabalho todo cansado, mas trazendo o chocolate ou a cerveja que eu tanto gosto. Te amo porque às quartas, a gente via futebol juntos na tv - o jogo de domingo 02/12 ainda 'tá de pé? Te amo porque amor entre uma são-paulina e um corinthiano existe sim, dois bons amigos m'ensinaram que é possível (Mari e Will, obrigada por isso). Te amo até nas nossas longas conversas, quando você cala as minhas confusões verbais, me aquieta com aquele beijo e tira todo o meu fôlego, esqueço até porque estava confusa. Queria te amar deitado no chão da sala enquanto eu leria um livro no sofá, toda largada, short jeans, camiseta branca e um rabo de cavalo. Te amar mais ainda quando, do nada, me faria cócegas e me puxaria pro tapete da sala com você. Queria poder saber, um dia, que você conhece cada ponto do meu corpo, da minha força, das minhas fraquezas e até os locais mais sensíveis das minhas costas. Queria amar você por me acordar a cada dia, de um jeito diferente. Amar até a bagunça no teu quarto, comigo tentando te cuidar e arrumar tudo - você rindo e me puxando pra dentro porque eu não teria forças pra não entrar. Te amar quando cantasse qualquer música bem baixinho pra mim, amar as coisas ditas ao pé do meu ouvido - as bonitinhas e as impublicáveis. Amar um amor simples, como amei a flor que mandou com aquele bilhete inesperado, só pra que eu sorrisse por lembrar de você.

Nunca te disse, mas gostava de contar pras pessoas que a gente s'encontrou porque, de certa forma, era um agradecimento à vida e um risco de esperança pr'aqueles que continuam procurando. E não sinto vergonha nenhuma de, finalmente, abrir a guarda e te contar tudo isso também, de explanar sentimento. Tenho vergonha sim, é de não saber amar direito, em plenitude... De sentir tanta coisa que chega a sufocar; de inconscientemente, inserir falhas onde não há só pra parar qualquer coisa bonita que queira crescer, fora do meu controle. No fim das contas, eu que sempre fui tão segura, sinto medo de não saber o que fazer quando os problemas chegarem e essa bolha feliz em que a gente vivia, estoure - porque um dia, sempre acaba estourando. Somos diferentes, acho que desaprendi a amar - será que ainda dá tempo da vida ensinar o caminho de volta? Me avisa, qualquercoisasigoemfrenteassimbemrápido, pra não sofrermos mais do que a gente aguenta.

E nossa história, surpreendente (lembra?) desde que nos conhecemos naquele bar há vários meses. Intensa, por todos os próximos dias que viriam com a gente junto - seja de que jeito fosse. E mesmo se não for, estes mesmos dias passarão silenciosos contigo aqui, em falta e em cada canto de mim, como se eu nunca tivesse pedido pra que você fosse embora.

Mas sei lá, talvez não devesse te dizer tudo isso...


...não agora, quando já não adianta mais.

01 maio 2011

My Life Would Suck Without You

“Because we belong together now, yeah!
Forever united here somehow, yeah!
You got a piece of me, and honestly
My life would suck without you.”

E pensar que, quase sempre, sou eu quem cuida de você. Eu sou mulher, todos aqueles adjetivos meio machistas e (por que não?) protetores usados pra definir o “sexo frágil” aqui. De frágil, apenas o que eu não demonstro pra qualquer um, e você já viu.

Tá errado comparar personalidade forte com auto-suficiência. Por baixo dessa teimosia, a dura casca que eu cultivei nestes anos todos, desse cabelo e dessas unhas vermelhas, tem alguém que sim, também precisa de atenção. Constantemente e mesmo que não assuma, demonstre ou peça.

Algumas mulheres são assim, tentativas de mascarar algo que deveria ser explícito. Não escondemos, deixamos no ar. Não explicamos, na esperança de que, por milagre, vocês entendam e venham, simplesmente. Colo sem culpa, sem perguntas, sem ladainha. Sem riso, porque necessidade não é graça. Admitir que precisamos significa muito mais que a nudez do corpo, porque é nudez de alma.

Me despi pra você aos poucos. De todos e todas que passaram por mim, de todos os rostos que tive, nenhum foi tão certeiro quanto. Você me conhece quase inteira, sabe de cada fraqueza mesmo sem ter visto um ponto ou escrito uma linha em mim. Certas coisas são muito mais que puro corpo, repito: é preciso ser muito mulher pra acabar com os pudores internos; é essencial ser muito homem pra aceitar sem toque.

Cuida de mim, vai, eu tô pedindo. Como se eu ainda fosse aquela menina loirinha e você, aquele garotinho que queria construir o nosso castelo. Duas crianças de cinco anos fazendo planos que, mal sabiam elas, teriam longa data e curtíssima duração. Será? Pela primeira vez, abri mão do meu lado fodona pra escrever em letras garrafais: sim, eu preciso e adoro cuidado. Choro ouvindo Chico Buarque, sou a típica menina dos vestidos leves e floridos, gosto de criança, canto todos os dias, leio sozinha no parque, assisto Glee, junto pessoas, só falo palavrão por costume, adoro cinema a qualquer hora, às vezes uso a bebida pra auto-afirmação, vou periódica/felizmente à igreja, sou voz e violão e só me sinto completa e viva n’um palco. Informações tão irrelevantes que nem precisava dizer, talvez ninguém acredite.

O que eu preciso fazer pra que você perceba que a minha delicadeza tá muito além do que os outros podem ver? Quanto vai demorar pra que você me observe de verdade, intuindo que eu também preciso muito de proteção? Até quando vou ter de assumir a postura ativa nisso tudo? Por quanto tempo ainda vou precisar agüentar e ser forte? Será que o destino vai continuar nos unindo "de forma irônica"? Creio que sim, mas é preciso saber o que fazer com isso. Você aproveitando essa sorte, por quanto tempo mais? Não sei, acho que vou deixar o resto do texto em branco pra que você tente responder direito e sem mil desculpas, ao menos uma vez.

...

Ah, não dá. Te deixo responder isso quando souber de verdade, o que eu sou em você. Pára de ver em mim, um exemplo. Me siga, me investigue por vontade, não por aprendizado. Entenda, sou mais passiva do que pensa, menos forte do que aparento. É que meu lado atriz sempre fala mais alto e acabo no caminho de sempre: sangue-frio. Vontade de ajudar e mania de querer resolver teus problemas mesmo que isso me coloque, inevitável e explicitamente em um patamar inferior ao das paixões arrebatadoras. Te descrevo e guio teus próximos passos como se morasse aí dentro, visualizo partes que talvez, só você conheça e me sinto feliz por ser útil. Aciono a psicóloga que existe em mim e olho pra você na minha frente, me falando novamente sobre um milhão de coisas aleatórias, mulher, álcool e uma vida onde não me insere no contexto. "Útil", é o que eu sou. Era - até hoje.

Se for pra reescrever alguma história, abandone o lápis – borracha demais pra sentimento de menos. Em mim e no meu corpo, adulto, só aceito caneta. Tatuagem definitiva. Amor e doação escritos à mão - tinta guache e lápis de cor compartilhados desde os tempos de colégio.

Tivemos e teremos várias outras pessoas que encantam e deixam marcas. Mas independente de qualquer história que apareça, o fato é: a gente se tem. Desde o primeiro dia, há dezoito anos atrás quando juntamos as mãozinhas e fomos caminhar por aí, diariamente. Isso é tão simples que, às vezes, se torna complicado d'entender. É como misturar a saudade que sinto, a vontade de estar perto mais a maturidade que tenho pra racionalizar tudo isso. É ser tranqüila o suficiente pra absorver a ausência - a idade passa, o carinho não.

E é isso: eu só deixo alguém adormecer aqui dentro desse jeito quando, de alguma forma inexplicável e bonita, vale a pena. O resto, eu jogo fora e mando embora, bato a porta e não relembro nunca mais. Contigo sempre foi diferente, você tem as chaves. Consegue entrar em qualquer cômodo de mim, sempre que quiser e mesmo que eu não autorize.

Meu menino, meu garoto, meu homem-feito. Disse que sou teu tesouro, um dos teus poucos orgulhos. E eu digo que você é parte da minha história, uma grande e singela parte de mim. Até daqui a pouco, até amanhã, até o ano que vem, eu não sei. Não importa, vamos envelhecer juntos e estaremos firmes um pro outro, um pelo outro, você me prometeu. Finjo que acredito, algum de nós vai cumprir.

Podemos relembrar o passado e planejar o futuro, mas o presente tá sendo feito. Por favor, capricha em cada detalhe, tenta avaliar esse tempo e tudo o que há nele, porque o instante mais importante é o agora. E é exatamente nesse nosso tempo tão mal-cuidado, regado a tormenta, que decido me afastar de você. Vou correr o mais rápido que puder pra te deixar um pouco sozinho, aprendendo devagar a como dar o passo n'um tempo em que eu não faço parte do caminho.

Você vai absorver tudo o que leu, sair sem pensar e bater aqui na minha porta pra conversar. Mentira, você é homem. Ok, eu tô seguindo em frente. Enxerga meu cabelo de longe porque só assim vai perceber que antes de ser qualquer coisa tua, eu sou uma mulher. Chateada, mas tentando não olhar pra trás.

video

03 outubro 2008

Para ver as meninas brotando

Só quero dizer a você que te deixo e por mais que eu te queira demais, a vida não gosta de esperar, a vida é pra valer, a vida é pra levar. A você, só quero que continue aí, lendo Dulce Veiga e testando os limites desse jogo de palavras pr’eu te descobrir aos poucos, leveza, confissão, impulso, ficar olhando e imaginar coisas que aconteceriam se. A você, ruiva, poxa, volta pra cá, te acolhe no meu ombro e aprende que é tudo um puta banho de água fria. A você, voa alto, voa imensamente alto e alcança os pontos onde eu ainda não consegui tocar - por você, tudo é passo, tudo eu posso. A você, mostra as pernas de novo nesse short xadrez, vai, deixa os pés descalços e as sandálias jogadas, me fala de Libra como quem conhece meu zodíaco interno. A você, clareante, toma todos os meus tons de vermelho pra tua felicidade. A você, saia daqui, gente inconveniente não se abriga. A você que não m’escuta mais, acorda e vai engolir o mundo, agora! A você que nunca vai saber, eu te espreito todos os dias, uma atriz sabe o que faz e disfarça vontades. A você, a viagem mais importante de todas, quando descobri que anjos vivem em São Paulo. A você, vamos deitar na grama e abraçar em todos os domingos até a velhice do corpo, ser Velma e Roxy em noites cheias de cor. A você, fecha os olhos, cai inteira, sem culpa e sem medo nessa coisa de se apaixonar - é que dor de amor não dói. A você, ô, a você eu só tenho a agradecer porque entendi mais de ser feliz, real, completa e simples depois que você apareceu. A você, quero que entenda que sentimento pela metade não se aceita. A você que transcendeu, todas as vezes em que precisei lembrar que você ainda existe em mim pr'eu continuar vivendo. A você, loucureia, morena, loucureia! A você, leãozinho, me dá mais do teu sorriso, dos teus colares e da tua poesia, eu te cubro de calor. A você, o nascer e o pôr-do-sol, porque os teus cabelos loiros fazem o céu ter mais leveza e importância. A você, a gente ainda canta Cartola num boteco qualquer do país. A você, não jogue a culpa em mim pela tua ausência. A você, desculpa os meus maus-jeitos e os meus sumiços. A você, faz voltar pra mim, a tua voz suave e calma? A você, agüenta firme e continua em pé, eu te seguro forte. A você, todas as palavras que eu nunca vou conseguir dizer. A você, guardados, todos os meus livros e flores de quinze anos atrás. A você, todas as nossas doses de tequila, todos os nossos brindes durante todos esses anos lindos que você me deu e os dias de hoje que você me dá. A você, algumas saudades que eu não assumo, por puro orgulho – ou desistência. A você, muitas coisas pra contar e vários conselhos pra pedir, quero te mostrar que a porra-louca permaneceu. A você, o meu beijo de verdade e a única bossa que eu fiz nessa vida, mesmo que as coisas não terminem em samba.

28 julho 2008

Oh Lord, won’t you buy me?

Eu deveria abrir a vodka e ligar trust in me, baby, give me time, gimme time, please, a littlemore time bem alto, mas preferi parar de beber e entregar os pontos. Tem gritos que o álcool não sufoca, a gente toma mais e não importa se o chão é a rua ou o jardim de casa. Não importa, a embriaguez é a mesma e a tontura de viver permanece em que estado for. A única diferença perceptível fica escancarada no rosto: pessoas sãs tornam-se menos filosóficas. O tempo não permite que existam divagações, a vida quer ser vivida e é o que se deve.

Tanto que cansei, fecho os olhos e a alma fatigada, vou pra cama e acordo só no dia seguinte. Renovo, sorrio, transbordo e recrio, viva o suco. Viva Caio de cada dia, toda manhã é um dia novo que cai em mim. Eu tombo e decido: amanhã não bebo mais. Não me seguraram ontem, o tombo doeu na carne, mas não foi a coisa mais dolorida que m’aconteceu, que pena. Palavra dói mais que asfalto de rua na pele.

Descobri que não gosto mais de chicletes coloridos em dia de sol, nem de paçoquinhas a qualquer hora. Descobri que não entendo nada de literatura e sinto receio de Nelson Rodrigues. Descobri que há certas coisas fortes que não precisam ser ditas com tanta dureza, é sempre bonito ter pitadas de sonho no que se faz, embora sonhos cansem, um dia. Descobri que sonhei e cansei.

Friozinho, algumas folgas no trabalho e cachecóis dispostos a sair do armário. Paredes precisando de pintura nova e eu, cheia de preguiça de pintar. Apagar coisas antigas não exige tempo ou prática, mas sim, disposição. Há letras que apagam sozinhas e somem num passo de mágica de dentro da gente. São clicks instantâneos em quê.

Sem mais babaquice, mulher, que a Mercedes Benz da Janis tá passando pra te pegar.

(Dezenove de Abril de 2008.)

26 junho 2008

Last Request

Um dia difícil, eu tive. E não sei se as coisas só deram errado para que pudessem melhorar mais tarde ou se a única coisa que valeu foi depois, quando ela chegou. Toda a frustração das oito horas anteriores às oito da noite passou num segundo, quando a única coisa que eu quis foi te abraçar.

Achei que a chuva viesse hoje. Receei que o frio viesse mais forte porque não havia ninguém que m’esquentasse o pescoço ou acarinhasse a nuca... Protegi-me com o cachecol preto, vesti uma blusa quente e vermelha, escondi as unhas também vermelhas com luvas e calcei o All Star. Era branco, quase tão branco quanto a folha de papel em que eu t’escrevo agora.

Todas as minhas ações de hoje tinham um pouco de você. Todas as pessoas, todos os cantos, todos os encantos. E no meio de brigas sem propósito algum, você fez feliz quando, por um segundo, fechei os olhos e lembrei do primeiro dia em que eu m’encantei por você. E por esse sorriso gigante, essas bochechas rosadas, esse cabelo bonito, esse ciúme querido... Toda essa lista sem fim de pequeninas coisas tão somente suas, tão grandes para mim.

As ruas estavam cheias, elas realmente enchem de gente no inverno e eu sei o motivo: as pessoas se abraçam mais no inverno. Talvez para enganar o vento, talvez porque não tenham a vergonha que se vê no verão quando todos se afastam, o contato físico é infinitamente menor e não se vê a Rua XV cheia de formiguinhas abraçadas tomando vinho quente. Tudo tão bonito que chego a pensar: meus sentimentos só costumam aparecer no inverno. Um romantismo escondido curitibano que adora os cachecóis e detesta o calor não-humano do verão.

Eu tinha um livro nas mãos ("Aos Meus Amigos", uma história bonita), acaso as coisas demorassem e eu precisasse mesmo esperar. Tudo bem, esperas são realmente valiosas quando se espera por algo tão essencial. E não importa a altura, o peso, a quantidade e nem ao menos o conteúdo do que se espera. Se houver carinho, se houver sentido, espera-se até o ar.

Passava das oito horas, a lua no céu, o vinho quente nas mãos dos namorados e eu. Ali, lendo e tornando a espera ainda mais bonita. E quando chegou, só consegui sorrir e agradecer. Se eu tivesse os teus olhinhos d’estrelas, eles teriam brilhado junto da lua no céu. Sorri, e sei que esse sorriso podia iluminar mais que o sol porque era um sorriso de felicidade. Tive você ao alcance das mãos e dos olhos, até da voz, se quisesse. Mas não consegui, você roubou todas as palavras que eu tinha e voltei para a casa assim, calada. As pessoas olhavam e eu sabia de alguma forma que conseguiam ler o que eu pensava, admirando a cidade escurecer pela janela do ônibus: a vida é doce.

Não pedi que o tempo passasse rápido porque aprendi que a espera pode ser linda - e realmente foi. O tempo chegou e foi agora, há alguns minutos atrás. Tempo em que eu quis, mais que todas as vezes,
te abraçar.

Te abraçar, meu maior amor de todos os invernos.

Nii

04 junho 2008

Poeminha de Junho

longa vida
é o que se
leva

boa sorte
é o que me
traz

cada dia, uma
saudade

duas noites:
beijo a
mais

09 maio 2008

Ah, insensatez...

"...que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado..."

do Tom, do Vinicius, da Nara, da Takai



Acordou sentindo-se ridículo. E de tanto achar, teve a certeza de que estava realmente sendo. Depois de pouco ter dormido, abriu os olhos e o primeiro pensamento do dia foi dedicado à menina: seu rosto iluminado de sorriso, seu sorriso feito um sol. E os cabelos - ah, os cabelos! - longos, tão longos que Rapunzel seria pouco.
Puxa, essa menina que não lhe saía mais do pensamento, ele queria mais é tê-la nos braços. Era pena que (ainda) a tivesse em algum lugar escondido no coração. E isso, ele não queria, não queria ser um bobo. Bobo, era. Procurava a menina e seus cabelos e suas bochechas e seus sorrisos e suas mãos e sua voz em cada canto, em cada gesto alheio, em cada lembrança viva. Sabia que, um dia, a menina lhe sairia de dentro - não sabia quando, ora.
O tempo passou todo sem cores, devia ser porque a menina não estava perto e assim, todos os dias eram de frio e de chuva e de cinza. De nada adiantava o algodão-doce, os risos amigos ou a felicidade em que estava todos os dias. Alegria de verdade vem de dentro e dentro dele, a alegria só ocupava a metade. O resto era da menina e não podia ser feliz sozinho...
Esqueci de dizer, ela tinha olhos d'estrelas! E o menino orgulhava-se, porque nenhuma outra pessoa no mundo tinha olhinhos d'estrelas - estrelado era quem fosse daquela menina. Ele não era, passava os dias todos buscando seu brilhozinho encantado. Bonito, não é? Não, se as estrelas fossem de longe.
Ontem, o tal menino virou gente grande. Na cama com seus cobertores quentinhos, decidiu que, a partir daquela noite, deixaria de sonhar com estrelas: brilharia com o sol e sorriria, porque é assim que se faz coisas de amor ridículo.

E ridículo, é. Ridícula, a menina. Ridículo, esse sentimento. Ridículo seja tudo isso.

15 março 2008

Luz


se valer viver
pai-nosso,
paradoxo de palco

minha alma atriz
valerá












enquanto houver
alguém, aquém
e a arte, comigo

algo em mim
haverá

10 fevereiro 2008

"E você também é Sophia, sabe?"

"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas."
Sophia de Mello Breyner

Para Nathália de Ávila, em uma noite bêbada curitibana:

Ô Bailarina, queria ter braços longos pra te alcançar. Que os meus braços cresceram, mas continuaram pequenos, eles crescem e eu diminuo dentro desse mundo cheio de coisa. E eu só queria te abraçar, porque abraçar é dizer que se gosta, acontece que eu te amo. Acontece tanta coisa sempre, que dá vontade de ter tendo vontade de. Ai, essa coisa de corpo dormente que eu tenho, eu queria mesmo era sair do corpo, tu já saiu do corpo? Eu já, foi num dia no palco, eu dancei e só sei que foi assim, eu saí e depois voltei, foi bonito. Se eu te conhecesse, eu podia lembrar e até te levar comigo, a música era bonita e tudo bem, há tempos em que a gente deixa o palco um pouquinho, é aquela coisa de amar agora e guardar tudo pra depois - um dia eu entrego amor em saquinhos pras pessoas. Vou te dar uns dois, pro caso de um dia, faltar saquinho no mundo. Aí em Minas tem saquinho de amor com pão de queijo, eu te faço um com leiTE quenTE. Engraçado eu falar em leite agora, há dias que eu não bebo leite - devo estar bebendo cerveja demais. E eu saio do corpo, tem gente que não tem responsabilidade. Eu tenho, bebo e saio e volto, eu nunca caí. Só caio sã, aqueles tombos de amor que a gente aprende a cair logo criança, ou quando um amigo empurra a gente e joga em algum lugar feito brinquedo que não quer mais. Mas sabe, Bailarina... Quando tem música, o tombo é quase um passo de dança, coreografado, majestoso, cena final de filme francês. Hollywoodianos, desculpem, somos todos Amélie Poulain. É que eu queria te dizer um monte de coisa, mas a minha cabeça tá girando e eu não sei por onde começar, as coisas dizem e eu escrevo e meus olhos te vêem, mas a tua voz, eu nunca ouvi. E o teu nome tá sempre quando eu fico feliz, ou quando eu fico triste ou quando eu sorrio ou quando eu choro, um choro assim, miúdo, calado e amuado. Lagriminhas letradas, uma coisa que eu nem sei explicar, bêbados não explicam. Amor se explica? Poxa, eu nunca te vi, eu nunca fiz cócegas e nem fiz rir, eu nunca. Sabe, que tem dias na vida da gente que vêm e mudam tudo, eu queria ter dias todo dia assim. Tu queria? Eu queria que a gente dançasse juntas, eu não sei dançar, mas quando a música toca e eu levanto os olhos e eu levanto os braços e eu levanto a alma, eu sou e eu quero, é o céu que fica chamando e eu quase alcanço, sabia? Acho que tu moras no céu e nunca me contou. Quando descer aqui pra Terra, vem pra cá? Eu prometo que não bebo mais e que te toco todas as músicas do meu Media Player e até te canto em todo o canto. Eu sei cantar, sabia? Sabia? Sabe que eu até te cantarolei Oswaldo Montenegro, uma vez. E eu acho que foram duas, ou três, ou cinco, ou é. Eu fico nervosa só de pensar que tô dizendo bobagem. Poxa, assim, depois que o álcool que me deram subiu, eu nem parágrafo, sei fazer mais. Droga, eu gosto tanto de parágrafo e eles estão me chamando, coitados, eu abandonei, mas eu abandono todas as regras de escrita pra t'escrever, Bailarina. Tá tudo confuso, tá tudo desconexo e eu lembrei que na vida, a gente tem que ter coesão. Esse troço, aí, eu nunca tive, sempre falavam disso no cursinho, deve ter sido por isso que eu reprovei duas vezes no vestibular. Saco, eu sei escrever, tô escrevendo pra alguém importante agora, isso é o que importa, né? Alguém importante que importa, é só isso. Porque ninguém sabe o que significa pra mim e o que fez quando entrou em mim, assim, desse jeito escrevendo. E entrando. E sorrindo. E sendo. Porque sabe, ela só é, e eu sou só. Mas quando eu escrevo essas coisas a ela, puxa, que parece que eu fico tão grande, dá até pr'alcançar Minas Gerais. E se eu der mais um passo, só um ou dois, eu entro dentro do coração, escuto o Tom e a Gal e o Oswaldo e os Caetanos e as Ninas e os amores cantarem lá dentro, bem dentro do coração bailarino musicado da menina que é gigante. Se eu fosse mais mulher, eu diria que é gente assim que deixa o mundo mais bonito, só que eu ainda sou moça e ela é gigante, eu já te falei. Gigantes crescem mais rápido e quando a gente vê, lavaram o mundo de boniteza. Eu só sei lavar o rosto quando eu choro, sabe, eu tô lavando agora, o rosto cheio de saudade e cheio de amor. De boniteza, eu só tenho o sentimento, eu acho que ele não precisa nem ser grande pra ser bonito, é só ele ser de verdade, que já vale. E não é valor em ouro, não, é valor dentro da gente e pra fora dos outros, quer dizer, pra fora de mim e pra dentro da Bailarina. E que todas as paredes e todas as letras e todas as confissões e todos os bêbados e todas as vidas e todos os mundos vivam música e virem música e sejam música e cantem todo esse amor comigo, porque ele é tão amor, que quer rodopiamAR.

13 janeiro 2008

Retroativa

Tenta alguma coisa fora de si, quando só enxergam sorrisos e ainda há vazio dentro daquela coisa coração. Não sabe se algo realmente valeu a pena, fato é que tudo ensinou e sentimentos geralmente implicam confusões. Viver implica morrer de amor e se contradições existem, são todas suas. Já não entende, não esquece, não partilha, adora negar: duas cervejas, por favor, muito obrigada! Limões fazem caipirinhas e risadas depois da noite de Revéillon, mesa de bar hoje faz arrependimento e sensação de burrice estampada no rosto branco, contrastado com todo o rubro do resto que começou Janeiro.

Ansiedade, já não mais. E nem rói as unhas, nem as vê crescer, nem deseja o esmalte vermelho, nem nada, nada, nada, não nada nada e hoje teve vontade de afogar mágoas no jardim. Chovia forte, pingos gordos caíam através da janela e o vidro embaçado sentia a respiração de alguém que vivia por aquele apartamento pequeno. No condomínio, cheiro de terra invadindo os dois andares - mora no segundo, mas não sabe direito onde vive.

Nada de nexo, e quem falou em nexo assim? Nunca existiu coerência, sentimento não é bola de futebol e ninguém merece chutes. Se existisse coesão aqui, a história não seria minha e francamente, eu estaria era bebendo cachaça na esquina. Acontece, meu bem, que pinga desce rasgando e desse jeito, eu já tenho tudo o que eu lembro. Essa coisa de beber cervejinha em bar de gente chique é pura balela, tá todo mundo com a mesma dor.

09 dezembro 2007

Menos de doer, mais de doar

É sempre assim, quando penso que você vai voltar. Mas você nunca volta e eu continuo aqui, fantasiando todos os dias que faltam e que sobram pra eu te ver de novo. A única coisa errada nisso tudo é que, sendo a vida toda confusão, as datas também se confundem e eu deixo o tempo correr toda a saudade do mundo, enquanto eu te espero num dia que nunca chega.

Quanto mais eu vejo o céu, azul, majestoso e ensolarado, mais enxergo você por perto. Deve estar voando por algum lugar onde a minha mão não alcance e, desse jeito, eu te imagino muito maior e bonita do que já é pra mim. Debruço na janela da sala pra poder sentir o teu vento mexendo nos meus cabelos curtos, o sol roubando o teu brilho pra me iluminar.

Já fui criança, já achei que abraço era proteção do resto do mundo, já me despedi e já senti saudade. Amei, caí, levantei e amei outra vez. As dores dos tombos eram menores que as dores de amor - acho que não amar, dói mais. E depois que o corpo cresceu, a alma quis seguir o caminho e contar o que umas tais bossas me fizeram nesses dias todos. Mas precisa? Uns sentimentos que não morreram dentro de mim, pois coisas verdadeiras não morrem e se não morrem, adormecem ou crescem. Eu cresci mais porque você existe...

Você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Tua voz tem o som mais bonito que eu já ouvi. Teu toque tem a doçura mais suave que eu já senti. Teu abraço tem o amor mais amado que já me amou. E os meus sorrisos são mais sorrisos com você por perto, meu samba é mais brasileiro se você canta comigo, minha noite é mais feliz se é você quem dirige o carro porque eu bebi demais. Meu dia só vira dia se eu abrir os olhos e pensar em você.

Junto às distâncias mais densas que eu já tive, tua falta é a mais desentranhada. E eu te amo mesmo em falta, porque amor não é de se entristecer, é de se rimar.

22 novembro 2007

Das iniciais nomísticas

Super-Dicionário Ninóstico da Língua Ninoquesa:

A com as pernas no chão e o vento no cabelo.
B que é um D montado no outro! Criança quer ser gigante pra poder alcançar os passarinhos no azul.
C de arco em corpo, ele quer ser elástico!
D que abre o bocão e sorri.
E esticando os três braços. Ora essa, letra também faz alongamento!
F com as mãozinhas e os olhos a frente, bem além!
G de perninha pra dentro, quanta elegância...
H de equilíbrio entre duas varetas na perna de pau.
I de se esticar até a alma, pegar uma estrelinha e sorrir.
J todo blasè, vira de lado e não quer conversar.
K que sonha em ser V, abre os bracinhos em diagonal.
L é todo preguiçoso, adora sentar na grama pra ouvir história.
M de contorcionismo duplo, quer ensinar o N a ser bailarino!
N de contorcionismo no banco da praça, porque palco é em qualquer lugar.
O que é primo distante do zero, sabia?
P que mostra a língua, ô letrinha mal-criada!
Q é a letrinha namorada do O, usa vestido e deixa o cordão do tênis desamarrado.
R de pernas abertas e cabeça pra frente, preparação pra correr a São Silvestre.
S que queria ter mesmo é nascido corredor de Fórmula 1, pra correr em curva.
T se abrindo inteiro pra abraçar o mundo todo de uma vez...
U é letra deitada com pé e mão que apontam pro céu, feito guarda-chuva ao contrário.
V com as perninhas pra cima, fazendo estrelinha!
X de duas letras I se cruzando no alfabeto.
Z que de tão indeciso, não sabe se vai pra lá ou pra cá! E fica assim, todo arcado pros lados da página.
W que tem um segredo: são só dois V's de mãos dadas!
Y alcançando o infinito pra depois, poder pousar.

01 novembro 2007

Librianíssima

Sou toda Bossa
e para mim não há Nara longe
nem Tom que cante pouco.
Mas naquele Samba que veio,
verde que te quero rosa!
Tenho o dia quase cheio.

Por ser tanto e muitas,
que dure o tempo infinito
do Vinicius de Moraes.
Bebo cerveja na esquina e vou para os novos carnavais.

Sou Balança, assim,
do contra.
E por mais que a vida não dê jeito,
confusão bonita é coisa pouca.

Sou muito sensível
para paixões não amenas.
Comigo é tudo
do-ci-nho,
irritante
e bem confesso, sem contracena.

14 outubro 2007

Todas as cartas de amor são...

"(...) Não seriam cartas de amor se não fossem (...)".
Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa


Curitiba, 14 de outubro de 2007.
Minha querida,

É dia quatorze, já passaram anos, sinto saudade.

Quando eu era pequena, não tinha muitos amigos. As coisas eram um pouco difíceis, mas eu sempre andava com os braços ocupados - livros de figura no bracinho direito e pipoca doce no bracinho esquerdo. Eu lembro bem, a senhora lembra? Todos os dias, os bracinhos ocupados e te levava uma flor.

Eu era a primeira da fila na hora do Hino Nacional, mas a senhora sabe, eu não era a mais baixa da turma - talvez, a mais interessada. Fecho os olhos e tenho aquela mesma imagem do "ouviram do Ipiranga às margens pláááá-ci-das!", a bandeira hasteada e o vice-diretor alto, magro, postura firme e olhos atentos. O diretor baixinho, careca e Arnaldo sorrindo para mim. A senhora também sorria, mas era um sorriso do lado de dentro. Eu sabia, cantava e tinha as mãozinhas no peito em sinal de respeito e amor por tudo aquilo que era o país para mim. Mesmo com a pouca idade, amava toda aquela letra e melodia, o verde-e-amarelo lá no alto... Brasil, Paraná, Curitiba, escolinha.

Parte essencial da minha vida naquele lugar e ele ainda está lá, intacto às minhas lembranças mais bonitas - e mais doloridas. O mesmo tio da pipoca que agora, já é vovô, a mesma biblioteca que agora, um pouco menor. Queria tanto morar naquela biblioteca! Junto das minhas figuras, da minha bruxinha, das prateleiras em que eu m'escondia quando ficava triste... Era lá que a senhora m'encontrava, as lágrimas correndo de desgosto e vergonha por não ser a menina mais querida da turma, exclusão por ser a menina que sentava na carteira da frente, usava óculos, lia, escrevia, poetizava e quase não sorria quando havia crianças por perto.

A senhora lembra de quando eu precisei de aulas particulares da sua irmã porque não conseguia fazer "continha de dividir com dois números na chave"? Puxa,  eu nunca fui boa com números, foram diazinhos difíceis e a sua irmã era difícil também. Ah, desculpe, ela era muito bonita e inteligente e tudo e tal, mas é que ela perguntava a tabuada do sete e eu nem podia contar nos dedos. Ela tinha um nome estranho, os cabelos loiros e bonitos, mas o resto, eu esqueci.

Eu nunca soube nada de Matemática, então, esses dias, sonhei com a minha primeira aula de verbos, foi tão bom! Ninguém tinha gostado, porque Português era coisa que ninguém gostava. E eu respondia todas as perguntas e me sentia feliz-feliz, porque é bom saber essas coisas de presente e futuro e passado, podia ser algo importante e eu tinha aprendido, uau! Eu nunca mais fui a mesma depois daquela aula sobre verbos...

E aquele piano bonito na sala da sua casa? Sempre disseram que eu tinha mãos de pianista, mas opinião de mãe não conta, acho eu. É que os meus dedos são compridos, mas só sei usá-los para segurar a caneta e fazer carinhos. Nem violão, eu aprendi a tocar ainda, que vergonha! Aquele violão que eu ganhei, coitado, nunca tocou uma musiquinha.

Meus cabelos não são mais loirinhos e encaracolados. Já tiveram cor de laranja, de cereja, de vinho, já foram até pretos, feito os seus. Os seus cabelos ainda são pretos? O seu rosto continua com a mesma expressão forte e doce, ao mesmo tempo? A sua pele continua macia? O seu sorriso ainda tem brilho, as suas mãos ainda sabem fazer carinhos? E o seu abraço, que tamanho ele tem? Será que eu ainda consigo me enfiar no seu peito, mesmo depois de grande? E a voz, continua fina, a risada baixa? Eu quero ouvir a sua risada baixa, logo.

Pois é, tantas coisas mudaram, garanto que meu sorriso e os olhinhos fechados continuam os mesmos. As dores atenuaram, os livros ficaram maiores e hoje, já não têm tantas figuras. Confesso que aprendi a dividir com dois números na chave só por esses dias, mas nunca contei a ninguém. Ainda gosto de cantar, minha voz melhorou um pouco e não preciso mais de óculos (ah, preciso, mas também é segredo!). Não rôo mais as unhas, acho que eu era muito nervosa nos nossos tempos de convivência... Troquei a pipoca doce por paçoquinhas e não me confundo mais entre lado direito e esquerdo mesmo que, às vezes, seja difícil olhar para frente.

Sendo assim, às vezes eu olho para trás e enxergo tudo outra vez: a menina feia, franzina, quieta e estudiosa passava os dias ajudando os coleguinhas na colagem, pintava flores no papel e escrevia, a seu modo, cartinhas a quem amava. E sentia amor por tanta gente, que as mãozinhas eram só sentimento e a vida era só uma vergonha de dizer.

Houve dias tristes, dias em que cartas e as suas estrelinhas de "parabéns!" na folha do caderno não adiantaram - as outras crianças não sabiam ler corações naquela época. Eu abaixava a cabeça e tampava o rosto com os livros que tanto eram refúgio, sabia que ali havia amor puro, e só. E sei que esse coração grande entende o que eu escrevo, sei sim.

Será que aquelas crianças associavam (falta de) beleza física e dor? Sempre busquei respostas nos livros, eles estão comigo até hoje. O menino que chutou meu peito com força e sem motivo foi embora, a camiseta branca foi lavada e a marca do tênis sumiu. O grupo que todos os dias roubava meus lanches, gritava, xingava e escondia a lancheira vermelha, nunca mais apareceu. A menina que ria de mim, sumiu. Todos sumiram, a Literatura continua aqui e eles devem estar em algum lugar, chutando e rindo de alguém menos bobo, mais bonito que eu...

A vida, a senhora e o mundo sabem que sim, eu cresci. Posso encarar qualquer um desses rostos e hoje, certamente, nenhum deles é mais humano, sorridente ou inteligente que eu. Porque eu aprendi com os livros e a Clarice e o Vinicius e o Quintana e o Machado e o Drummond e a Cecilia, até com a Bruxa Onilda, e não há melhores professores que eles, não. Eles, eles e a senhora m'ensinaram a ser gente. Obrigada por isso, eu nunca na vida, vou esquecer.

É que agora, tia, as minhas mãozinhas finas cresceram e eu consigo bater - na alma, no coração, bem fundo, que é onde dói mais, muito mais.

Daqui a pouco será quinze de outubro. O doze, Dia das Crianças que cresceram já passou para virar Dia de Professora Vera dos olhinhos de jabuticaba.

A você, um amor imenso e os mesmos abraços&flores do primeiro dia, há exatos quinze anos atrás.

Talyta Antunes
(tua aluna no Pré-Escolar I e na 2ª Série do Fundamental,
futura estudante de Letras porque você existe.)


17 setembro 2007

Crescentes de Setembro

Tu consegues ver? A noite é brilho de purpurina que vem dos teus olhos. Um brilho de criança, do último dia em que usei brilho colorido no papel. Acho que vês, pois se abres o sorriso assim, é porque m'entendes e isso não te causas susto. É assim, feito o teu jeito pequeno que cabe na palma da mão.

Teus cabelos são fios de poesia e a lua é escritora, querendo te acompanhar. Pois se a lua bem entende de letras e cores, que dirá, de amores! Lua poética delicada, há várias partes dela em quantos céus... Mas em nenhum céu, além do meu, há estrelas que brilhem em luzes de dia.

N'algum tempo dessa vida, alguém há de descobrir os vários raios de sol em olhos d'estrelas. E dentro dos teus olhos estrelados fechados, a cidade girando feito carrossel destrambelhado - meus braços rodando, alguma coisa nesses olhos que me deixa e me confunde e me decifra, eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos e a cidade ainda girando...

Falava-te de brilhos, um tempo de infância passado e luas-de-mel poetisas em dias eternos de núpcias. Luas que eram também doces, um pote açucarado de carinho - era o mel que brilhava ou a doçura que luzia? De nada sabe-se, em tudo confunde-se e eu apenas sentia as sutilezas e fugia (em vão) de clarões que conseguias por transparecer.

Todas as estrelas, observo e guardo para ti, em potes. Como perigos guardados, a fim de proteger-te de todas as abelhas do mundo, abraçar-te, Idgie e Ruth*. Se te fazes bem assim, simplesmente por brilhar em potes de mim, basta.

Chego para perto e tenho o (teu) gosto de mel: de todos os pontos noturnos ao alcance dos dedos, prefiro os musicados. Temos dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó e dez sentidos, sentindo por si. Tocamos estrelas a quatro mãos, te alcanço no ritmo de nossas canções e meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti.

Os olhos fechados, doce, doce, doce... E és sim, meu grande pote de mel.


*Personagens do filme "Tomates Verdes e Fritos".

14 agosto 2007

De Sangue

Eu tinha escrito um monte de coisas pra você. Mas não dava pra ler, a tua imagem já havia atravessado a porta e era como se carregasse um pedaço grande de mim. O maior pedaço do mundo de mim, com você. E eu queria que o tempo parasse, só pra não te deixar ir embora, assim, eu deixei e você foi - volta quando? Volta? Que se não vier mais pra mim, quem vai entender, é que só você entende partes preciosas de mim e eu tenho tanto de você - sabe, né? Que eu tenho tudo pra você, você, vo-cê por todos os lados, enfim. E eu queria te escrever bonito também, mas às vezes não dá, sabe? A gente precisa jorrar o que tem, cuspir toda essa coisa ruim que vem de dentro e não sai; empobrece e cai. E as lágrimas dos meus olhos dão é passagem pra dor passar, eu queria mais é arrancar tudo daqui, tira isso de mim agora, enfia a mão e arranca mesmo a minha roupa, quero ser inteira e toda pra você. Sabe o que é? Minhas mãos finas cresceram e eu virei alguma coisa por fora, mas eu sou podre e todos os sorrisos e todas as alegrias e todos as porcarias dessa porcaria de mundo são falsos. Pô, segurar a barra, será que isso é importante pra você? Com você, eu só tenho certezas e com você eu só tenho alegrias e com você eu só sou. Segura aqui, o meu coração e aperta bem forte, que eu dou ele todo pra você. É que hoje acordei sentida, cheia de mágoas e ontem foi tão igual, que sei lá, os dias sem você, são todos iguais e eu, ponto. Aprendi a ser gente e de tanto ensinar, queria te fazer aprender que não se deixa amor guardado assim, pra dar depois. Guarda o que tem aí dentro pra trazer na volta, eu te estico os braços e te alcanço, eu sei que nem é tão longe assim. Você sempre esteve tão perto, tem momentos na vida da gente em que é só fechar os olhos. Entende? Fechar, fechar, fechar. Agora, por favor: fecha essa porra de porta, o vento bate e não te traz tão cedo, eu sei. Eu arranco a ruindade de mim e faço os olhos chorarem toda a dor do mundo sem o teu abraço quente aqui. Preciso ficar nua e nem isso eu posso mais, arranhar toda a pele, rasgar essa porra toda. Segurar a barra, sabe o que é isso? Eu já te falei, segurar a barra, agüentar qualquer coisa dura assim, que apareça, feito aquela maldita porta se fechando e teu rosto afastado do meu. Ai, que me dói tanto, teus olhos vermelhos de choro... E é uma dor tão doída, dor maior que eu já tive, dói em mim, percebe? Queria poder arrancar o vermelho dos teus olhos, também. Queria te arrancar do mundo e te trazer pra mim, pra sempre, pra nunca mais te ver assim. Assim, sabe? Sabe do que eu tô falando, dessa idiota desesperada escrevendo pra você? É disso que eu falo, desse amor imenso que eu te tenho, logo eu, logo eu. Sempre fui tão igual, descobrimos que brotou maturidade e ontem, alguém me disse que virei mulher Janis. É isso que você tinha pra me dizer? Que eu virei alguma coisa maluca que ninguém sonhou, uma porra-louca alucinada e com o coração maior que existe? De tanta bebida, tanto carro correndo, tanta confissão, tanto inferno de vida, fiquei bêbada de você - uma Tequila, por favor. Podia ter cheirado todas essas coisas e eu ficaria fora por muito tempo, mas eu não quis - nunca quis, eu tenho esse jeitão só por fora, bicho. Só por fora. Por dentro, eu sou só. É, a gente aprende e cresce, canta Cássia e deve ser amor - é assim que se diz na música do Kid Abelha, né? Tá, esquece, você prefere Pink Floyd e eu te canto Cartola nas noites de sábado. Caralho, eu me desvendei pra você. Te disse todos os palavrões do meu vocabulário sujo e te fiz perceber que em quase vinte anos, eu virei isso aqui, essa podridão triste que tá te escrevendo. Mas foda-se, eu sei que você m'entende até pelo lado de dentro. Ô meu amor, não chora não. Meu tom vermelho do olhar mais precioso e bonito, eu tô tão precisada. Mas tudo vai ficar bem, acalma essa tormenta e te agüenta, é só isso: a gente se tem. Meu bem.

18 junho 2007

Zodiacal

Rastro

rompe
pele
e pintas

em roupa rasgada.

Grito

sussurra
suspiro

assustado,
sozinho.

Longe


e linda,
sem limite.
de lá
de leve, em Libra.

Tanto

tato
e tinto,
transa!
vinho tonto.


Traga Touro.

19 maio 2007

Tudo é blues, tudo é cósmico

Gosto dos gritos, piece of my heart, fala bêbada, tudo mostrando Janis em mim.



.



Se canto tanto, é pra t'esperar, porque t'esperar é aguardar que tu voltes a ser o que eras e se tu não voltas, eu não volto a ninguém e meu mundo acaba. O que é esse teu mundo? Haveria espaço para mim, mesmo que minúsculo? Prometo que fico quieta, digo nada, olho pouco e calo. E calo, e calo, e calos em mim. Mas se grito tanto, é que o mundo todo já foi dormir. Restou, restei, ball and chain. Ai, aquela coisa que desce a garganta e faz queimar de tanto grito. Será que foste dormir no mundo? Será que dormes com alguém? Será que voltas para a cama depois desta garrafa vazia de ti? Não, não estou sendo dura demais, é só o resto que sobra e eu sou tudo o que sobra, mesmo. Gotas de vontade estúpida mal-acabada e nada bem-acabado, tudo finito em grito e choro e droga! A bebida, esta maldita garrafa que tu me destes e acaba-se a cada gole novo que dou de ti. E o cigarro que era teu e o sorriso que era teu e o teu "eu" que era meu ali no chão, idiota. Vai-te embora e não volta mais, que eu te xingo e te sugo e te quero e te meço e te meto os dedos na cara e t'explano com todo esse meu querer bêbado e louco. Louco grito, grito rouco,
it's all the same fucking day man,
eu bebo. Sem jeito nem preconceito e foda-se o mundo, baby!

08 maio 2007

Enlouquecer ou Delirar

Por vezes, sou um ato falho.
Às vezes meço, e as distâncias são tão pequenas que seguem as linhas da palma da mão. E não me refiro a longas distâncias, quilômetros cheios de riscas brancas no chão, onde não há mão alguma para se segurar. Refiro-me às distâncias realmente poucas, aos metros que compõem curtos espaços, cabem em fita métrica esticada.
Queria saber quantos passos cabem dentro deste quarto. Quantos braços abertos conseguiriam exprimir amizade dentro destes azulejos e, ao acaso, quantos correriam em cima da cama, brincando de pega-pega.
As crianças pulam ao lado da janela, o vidro aberto dá a sensação de perigo, mas o vento invadindo o apartamento traz toda a liberdade que preciso para voar. E há várias maneiras de voar: jogo papéis escritos por onde passo.
Talvez, certo receio de tentar; o caminho de volta não permite igual (re)começo. Medo de que as riscas no chão não indiquem mais por onde se deve seguir, de que poucos toques terceiros tranquem as pequenas estradas. Mas caminho, assim, com os dedos das mãos todos seguindo as riscas de cimento que encontro nesse esticar de braço alcançando, leve, os traços dividindo os passos em azulejos.
Um dedo, dois dedos, forma de gente andando feito bebê aprendendo a andar. A outra mão, aos poucos, acanha e cambaleia - esquerda não tem certeza se consegue continuar. E juntas, as duas, num ballet quase imperceptível, não fosse pela música no aparelho ao lado. Meus cabelos que formam o vento, cor de Mediterrâneo, esvoaçam e despedaçam meu medo com todo o cuidado. Coração acelerado faz as vezes de palco, arrebata e bate, descompassado, feito tambor e batuque da estréia. Unhas crescem e pés saltam, tudo é dança contemporânea. Tudo é conterrâneo, a fita métrica se finge de laço colorido, voa pelo ar como atriz principal, faz entender que Curitiba é muito menor que toda essa gente dormindo no condomínio ao lado.
E todos os passos que eu der juntando mãos e dedos, podem sim, acabar em abraço. Que eu não feche as portas de lábios sorrindo para cada reencontro - e em cada despedida.
Não estranhes, bela atriz, se eu disser que te adoro. Não te admires, caro amigo, se sorrisos disserem calados que sim, sinto falta. Não te acanhes, precioso diretor, se o relógio couber na tua palma da mão. O tempo é teu.

Não te esqueças, meu refúgio penopalquiano: eu só posso viver com você. E recebe-me de volta contigo, um dia, piso no teu chão e beijo teu cada canto. Poso de bailarina e danço, ainda, ao som do teu compassar.

24 abril 2007

Letra Ésse

Mini-Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa:
suspiro 1. Respiração entrecortada e mais ou menos longa, produzida por desgosto ou por incômodo físico. 2. Desejo ardente. 3. Som doce e melancólico. 4. Lamento, gemido. 5. Orificiozinho que permite extrair um líquido em pequena quantidade. 6. Acessório que se instala em canalização, recipiente, etc., para o escapamento de ar em excesso, ou de gases. 7. Paste de clara de ovo batidas com açúcar. 8. Doce feito com esta pasta levada ao forno.

Super-Dicionário Ninóstico da Língua Ninoquesa:
suspirodealguémsuspirento 1. Respiração provocada por alto índice de apaixonamento. 2. Entendimento do riso sem motivo vindo de dentro do mais fundo da alma feliz. 3. Não-querer-entender-o-motivo-do-risonhamento. 4. Passarinhos cantando dentro do estômago, por vezes alternam entre borboletas e elefantes coloridos. 5. Mundo pintado à dedos livres com aquarela nacional. 6. Óculos embaçado por vapor suspirês provocados por sorrisos segundos-minutísticos-do-toda-hora. 7. Prescrição solar e medicamentosa para braços abertos para a vida bonita. 8. Palmas imaginárias ecoando por toda a região cerebral, causando piscadelas constantes para o objeto da paixão. 9. Barulho de sinetas tocando sinfonias inventadas por maestros dentro da cabeça pensante desajustada suspirenta. 10. Dez milhões de motivos para fazer barulho com a boca (o velhinho está triste no banco da praça? Dê um sonoro: "Aaaaaaah..." para ele, suspire aos quatro ventos - ou aos dez ventos - e sinta o prazer de se apaixonar!).

10 abril 2007

Da Língua

coisa
de
pele
coisa de coisa

tua
saliva

meu
alívio

te
vivo
me viro
ins
piro
tocar

te gosto
encosto
quer tudo
des-nudo
con

tudo
amar

te ganho
estranho
pra ser
te ter

e
ver
goz
ar


te
sinto
ganhar
beira
(a)-mar

03 abril 2007

Intrinsecamente

Percebia as mãos querendo tocar algo. Dedos finos tateavam o ar abafado que insistia em permanecer ali, junto aos móveis, à roupa, à respiração. Quis ficar, sufocar-se entre travesseiros e sentir sozinha, a pele quente. Mas era uma contradição. Saiu sem casaco, chaves nem receios, tomada por oportuna vontade que poucos conheciam.
Cansou de tanto pretérito, queria "agora" e sentiu presente escorrendo-lhe o pescoço. Voz querendo espaço, foi grito abafado pelo barulho dos carros. Alguém ouviu, seu rosto corado denunciava.
Carro ao lado, um sinal, debruçou sobre a janela. Gostou da melodia que tocava - algo eletrônico, causava-lhe coisas.

Tango.

- Eu... Eu só queria...
- Tudo bem, está tudo bem. Não se culpe.
- Nós sabemos que...
- Sim, sabemos.
- Desculpa. Eu devo estar mesmo estr...
- Estranhamente linda e vermelha.

Rosa.

Podia sentir o perfume, enxergava nitidamente aquela situação (des)confortável em que estava metida. Mas queria, embora não soubesse, essencialmente, como fazer. Era o instinto falando mais alto, eram sentimentos mascarados sem falar.

Vermelho.

- Estranhamente linda e vermelha.
- Desculpa. Eu devo estar mesmo estr...
- Sim, sabemos.
- Nós sabemos que...
- Tudo bem, está tudo bem. Não se culpe.
- Eu... Eu só queria...

Boca.

Sabiam sim, que voltar não estava nos planos. Sabiam não haver planos e ela sabia de si. Sabia por duas. Sabiam demais.
Frio por fora, o resto era deliciosamente perceptível. Instintivo, inegável, impulsivo, ir-re-me-di-á-vel.

"[...]hay temblor de gotán
este tango es para vos"

- Sai desse carro, dança comigo essa noite.

08 março 2007

Em Círculos

Ia pro carrossel aos domingos. Em segredo, que nenhum adulto podia saber pr'onde ia. Domingo era dia de cor, e quão prazer tinha em ver flor espalhada pelo parque! Era cachorro sem dono que corria, era bola quicando pra lá e pra cá, eram os olhos dela brilhando em livro e carrossel, era bom. Mas ela, logo ela, tão forte, tão sorriso, tão tudo, nunca ia. Tanto movimento, sempre gostou de assistir (o "sempre" dela já durava três semanas!) todo mundo.
Só reluzia aquela menina loirinha e sentada sob o sol. Era só ela que reluzia e de tanta concorrência pro tal do amarelinho lá no céu, aquela garota causava ciúmes com o cabelo. O sol também refletia no carrossel, embora as cores fossem coloridas e o amarelo, muito mais escuro.
Loirinha rodopiava. Tão livre quanto um passarinho sem ninho certo pra voltar, feito flor desabrochando rápido pro mundo,

feito criança escondida dos pais.

[...]

Naquele domingo levantou cedo cedo, tinha pouco tempo antes que acordassem. Colocou o short mais confortável, o preferido. Era vermelho, da cor do lugar vermelho no carrossel, o preferido. Foi a pé, eram só cinco minutos, mas pra ela, livre, astuta, peito aberto e estufado, pareciam cinqüenta. Sozinha, atravessava uns poucos metros de grama em quilômetros de liberdade.
Sentou, deixou o livrinho de lado, sempre esperava a sua vez pra poder brincar - era boba. Ninguém esperava por ela, todos aqueles guris metidos achando que eram donos do mundo, aquelas meninas cheias de laços e fitas, cheias de mães que as levavam pr'um carrossel... Cheio. Cheio demais. Carrossel era dela. O livro que se perdesse, que se perdesse.
Gritou, socou, chorou.
Meninos e meninas eram todos iguais - e só o sol podia entendê-la naquela hora.
Em casa, contou tudo. Segurou, se fez forte, só ganhou um "tudo bem". Antes tivesse ganhado um tapa; meninos sim, eram todos iguais - e só agora, ela entendia.
Carrossel pouco pra tanta criança, mundo pouco pra tanta liberdade, lugar pouco pra caber tanta menina-loira, gente pouca pra ver.

Chegou segunda-feira. Não coube mais. Cresceu ao contrário.
E virou menino por dentro.

10 dezembro 2006

Comigo

Eu, perdendo o senso e o corpo, levantei devagar as mãos como que para encontrar o lençol branco manchado de vontade. Era sensação demais e alguém de menos.
Eu, tentando disfarçar o rosto cheio de marcas do minuto anterior. Tentativa frustrada de parecer o que não éramos.
Fui até o espelho, imagem refletida do pseudo-sono que, de sono, ah! Só as quatro letras.
Coisas que eu quis escrever na fumaça do banho, com a boca. Coisas que escrevi sem sono nesses dias de quatro (letras) com você.

Fragmentos. In-sanidade voraz e contínua que continua, e continua, e continua,
nua...
Descobertas. Im-perfeição encontrada em mim, e só,
a sós...

E as quatro letras, estas são, definitivamente, (não) pensar mais em você.
Sono a mais para noites a menos.