04 novembro 2012

Têm certas coisas que eu não sei dizer

"Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente, eu te falo com paixão..."


Certas Coisas - Lulu Santos




Eu não sei qual foi o momento exato em que me apaixonei por você - não sei em que momento eu me perdi e te encontrei. Deve ter sido naquele estúdio em uma das nossas noites de Rock'n Roll, um tal guitarrista tocando "Sweet Child O'Mine" e olhando pra mim. Talvez tenha sido um pouquinho de todas as vezes em que eu fui pra janela do quarto e você estava ali, tranquilo e pronto, esperando que eu te abrisse a porta com um sorriso do tamanho do mundo. Minha única certeza é a de que alguma coisa mudou quando, pela primeira vez, eu não quis te deixar ir embora da minha casa nem da minha vida - em um dos nossos dias 23.

Sempre foi complicado distinguir encantamento de paixão, paixão de amor. É tudo estrago do mesmo jeito; no fim é tudo saudade e falta da mesma forma. Encantamento, acho que senti quando você me abraçou em mais uma noite de festa, me acarinhando por muito tempo como se dissesse em silêncio à todas aqueles amigos que era a mim que você tinha escolhido. A paixão veio assim, de surpresa e toda desajeitada no trânsito, enquanto eu olhava pra você dirigindo o meu carro porque eu não sabia o caminho de volta pra casa. Você não percebeu, mas deitei no banco do passageiro e me senti uma mulher de sorte por te ter, literalmente, do meu lado. O amor, poxa, o amor eu só entendi quando olhei pro teu canto do sofá, quando saí na janela e você não 'tava em lugar nenhum.


Não tem mais tanta graça dirigir aquele carro porque sei que você não vai mais esquecer nada ali e pior: não vai precisar voltar pra buscar. Arrependimento por ter devolvido aquela pulseira com o teu nome gravado - ao menos assim, ela estaria até hoje na minha cabeceira como um pedacinho teu dentro desse quarto enorme... Ainda não consegui trocar o toque do celular, é o comecinho de Sweet Child a cada ligação que recebo e sei, não mais a tua.


Como se fosse ontem, vejo você sorrindo pra mim, encabulado quando a gente se conheceu - uma vergonha explícita, uma risada gostosa. Um infinito de coisas às quais muitos não se atentariam mas eu percebi: você tinha. E na ficha completa que te encaminharam com informações minhas, a mais importante foi: ela gosta dos detalhes. O jeito com que me ofereceu cerveja durante toda a noite, não porque me queria embriagada, mas porque me queria feliz. A falta de cuidado que teve com as palavras, vulgo "confiança à primeira vista", contando a vida toda (até o que eu não precisava saber, rs), os teus olhos brilhando quando falou sobre música. A conversa sobre banalidades, a forma implícita com que me deu liberdade pra fazer do teu banco do passageiro, o meu lugar. Às vezes, a gente cala porque simplesmente não sabe o que dizer. Eu, sempre tão tagarela, fiquei quietinha vezemquando e você falava, falava e falava. Calei e ouvi porque queria tudo, menos estragar a coisa bonita que 'tava acontecendo no bar, na rua, no carro, no caminho pra casa. Porque a partir dali, qualquer lugar era bonito e alegre com você, até mesmo a frente do meu apartamento às 4 horas da manhã, ainda que eu nunca tivesse confessado isso antes.

E naquela noite, descobrimos que cupidos existem, coincidências também. Depois, dia após dia, entendemos que vale a pena esperar - e acreditar - porque o Universo recompensa aqueles que buscam o amor em silêncio, sabendo que de nada adianta desesperar. Mas acima de tudo, a vida sempre faz feliz àqueles que dão valor pro outro. E eu sei - não apenas porque você me disse isso algumas vezes - que você 'tava comigo assim, inteiro. Você 'tava comigo e não era pelo meu jeito mulherzinha. Era pelos detalhes mais bobos, aqueles dos quais eu mais tenho vergonha. Era pelas músicas que eu cantava sem perceber, por falar sozinha, por me aninhar no teu peito e me acalmar assim, quando a gente via qualquer coisa na tv. 'Tava comigo porque, de alguma forma, sabia que a hora mais feliz do meu dia era quando eu abria a porta e sorria pra te deixar entrar.

Queria que estivesse comigo pra ver que acordo esparramada na cama, talvez na tua, como se o emaranhado de lençóis fosse o meu mundo inteiro. Queria que continuasse comigo por todas as minhas musiquinhas no violão, minhas tentativas frustradas, envergonhadas, solitárias com as notas e com o Bon Jovi (haha). Queria que permanecesse pelo tom branquelo da minha pele, pra poder continuar me chamando de polaca enquanto cantava "Cabelo Cor de Ouro" no caminho pro parque. Queria que me ajudasse a lutar contra mim mesma, todas as vezes em que eu botasse tudo em jogo, com todo o medo do mundo, como se estivéssemos fazendo algo errado por estarmos juntos. Queria que me fizesse parar de botar defeito em tudo, contraditória e maluca quando tinha você menino e queria o homem; quando enxergava o homem mas te queria menino. Queria que você, Touro, acabasse com todas as tolices de Libra.

Além de qualquer motivo, há o mais difícil de todos - queria que estivesse comigo porque descobri uma coisa, a mais importante de todas: eu te amo, de qualquer jeito e mesmo que você seja meu oposto, o meu avesso na vida. Te amo quando chega do trabalho todo cansado, mas trazendo o chocolate ou a cerveja que eu tanto gosto. Te amo porque às quartas, a gente via futebol juntos na tv - o jogo de domingo 02/12 ainda 'tá de pé? Te amo porque amor entre uma são-paulina e um corinthiano existe sim, dois bons amigos m'ensinaram que é possível (Mari e Will, obrigada por isso). Te amo até nas nossas longas conversas, quando você cala as minhas confusões verbais, me aquieta com aquele beijo e tira todo o meu fôlego, esqueço até porque estava confusa. Queria te amar deitado no chão da sala enquanto eu leria um livro no sofá, toda largada, short jeans, camiseta branca e um rabo de cavalo. Te amar mais ainda quando, do nada, me faria cócegas e me puxaria pro tapete da sala com você. Queria poder saber, um dia, que você conhece cada ponto do meu corpo, da minha força, das minhas fraquezas e até os locais mais sensíveis das minhas costas. Queria amar você por me acordar a cada dia, de um jeito diferente. Amar até a bagunça no teu quarto, comigo tentando te cuidar e arrumar tudo - você rindo e me puxando pra dentro porque eu não teria forças pra não entrar. Te amar quando cantasse qualquer música bem baixinho pra mim, amar as coisas ditas ao pé do meu ouvido - as bonitinhas e as impublicáveis. Amar um amor simples, como amei a flor que mandou com aquele bilhete inesperado, só pra que eu sorrisse por lembrar de você.

Nunca te disse, mas gostava de contar pras pessoas que a gente s'encontrou porque, de certa forma, era um agradecimento à vida e um risco de esperança pr'aqueles que continuam procurando. E não sinto vergonha nenhuma de, finalmente, abrir a guarda e te contar tudo isso também, de explanar sentimento. Tenho vergonha sim, é de não saber amar direito, em plenitude... De sentir tanta coisa que chega a sufocar; de inconscientemente, inserir falhas onde não há só pra parar qualquer coisa bonita que queira crescer, fora do meu controle. No fim das contas, eu que sempre fui tão segura, sinto medo de não saber o que fazer quando os problemas chegarem e essa bolha feliz em que a gente vivia, estoure - porque um dia, sempre acaba estourando. Somos diferentes, acho que desaprendi a amar - será que ainda dá tempo da vida ensinar o caminho de volta? Me avisa, qualquercoisasigoemfrenteassimbemrápido, pra não sofrermos mais do que a gente aguenta.

E nossa história, surpreendente (lembra?) desde que nos conhecemos naquele bar há vários meses. Intensa, por todos os próximos dias que viriam com a gente junto - seja de que jeito fosse. E mesmo se não for, estes mesmos dias passarão silenciosos contigo aqui, em falta e em cada canto de mim, como se eu nunca tivesse pedido pra que você fosse embora.

Mas sei lá, talvez não devesse te dizer tudo isso...


...não agora, quando já não adianta mais.

3 comentários:

Felipe disse...

bonito!

Srta. Vihh disse...

Ai que triste, um nó se formou na garganta.

Letícia Cardoso disse...

Eu achei seu texto todo todo bonito, cheio de simplicidade e de momentos que não costumam ser ditos, mas que fazem uma diferença enorme quando são.

Eu sou completamente a favor de dizer as coisas, mesmo sabendo que é difícil, mesmo sabendo que às vezes dá errado. E as coisas que você disse "já não adiantam mais", pelo menos renderam um bom texto, uma coisa só sua, algo que ele pode olhar e saber que é pra ele, que saiu de dentro de você como todas as outras coisas bonitas e relacionadas aos seus sentimentos já saíram em outras vezes.

Eu fico muito feliz de te encontrar lá no blog. Se quiser, dá uma curtida na página e me procura pelo face. Vou ficar feliz de conhecer mais sobre a sua história. (eu tenho essa mania, parece boba, mas eu já aprendi muito com as histórias dos outros.)

Um beijo!