Memórias de um casal urbano
“Madrugada chegou
O sereno caiu
O sereno caiu
Meu amor, de cansaço
Caiu nos meus braços
Sorriu e dormiu [...]”
Caiu nos meus braços
Sorriu e dormiu [...]”
Caetano Veloso
De todas as vezes em que a tive nos braços, ficaram duas certezas: a de que o batom jamais dura muito tempo na boca e a de que as bibliotecas são lugares irresistivelmente feitos para o amor. Nossos dias especialmente simples, nossas noites minuciosamente preparadas, ah. E nossas tardes de inverno, o vento atravessando a nuca e nossos abraços entrecortando os cachecóis... De tudo foram feitos dias e noites, tardes e acasos maravilhosamente inesquecíveis.
Tu te sentavas à mesa, majestosamente linda, educada e gentil. Eu sentava-me ao chão, sem boas maneiras só para que pudesses admirar-te altiva, pois era – e é – assim que merecias ser vista. Nosso tempo era esse, regado à vinho e sorrisos. Seriam duas vidas transversais que, de tanto cruzarem-se, criaram união? Não sei, talvez buscassem apenas companhia barata, um gesto agradável ou um olhar de malícia – mãos que calavam. Éramos como desconhecidos, redescobrindo linhas em cada corpo e demarcando caminhos em tempos de volúpia.
Houve aquela manhã em que eu, detido pela preguiça e preso ao calor dos cobertores, fechei os olhos e sonhei contigo. Espero que não tenhas esquecido, pois foram teus pequeninos gestos que trilharam em mim por todo aquele dia, estendendo teus carinhos noite afora. Acordei com teus dedos suaves passeando-me o corpo, o rosto, os lábios. Tua meninice encantando os ritos de minha pele, tua molecagem brincando de virar mulher em meus braços, tão ansiosos por.
Somos dois amalucados de vida, chego a pensar. Pois se eram silenciosas as nossas partidas, eram também caladas, as nossas chegadas. Era o silêncio do meio-termo, quando olhares diriam muito mais que todas as declarações de amor guardadas. Os beijos escandalosos e despudorados às duas da tarde na praça, os poemas suaves ao acordar-me, o cuidado que tinha ao fazer-te dormir, minha criança acuada, na cama em pose de feto. Deitava-me a teu lado, acarinhava teus cabelos e sabia que nada teria de ser bonito no dia que nascia porque dúvidas não são assim, tão bonitas. Mas eram elas que tornavam nossos caminhos a plenitude do não-saber, transformando nosso amor em paralela sem porquês.
Éramos apenas amor. Amor, e mais nada.
10 aquarelaram:
Lindo de mais!Lindo de mais!
Memórias suaves e doces...lindo, me lembrou a poética de Caio Fernando Abreu. beijos aquarelados
Quero conversar com você, coisinha.
uretihsia
nossa, q suave e lindo. um texto que leva e que ao chegar no final, dá vontade de começar tudo outra vez, só para q nunca acabe. adorei. visitarei mais vezes. apareça no meu blog se puder.
beijinhos ;*
'as bibliotecas são lugares irresistivelmente feitos para o amor.'
confesso que estava dizendo isso ao meu par há dois minutos atrás.
empatias a parte.
belo texto.
Credo! mandei um depoimento pra uma pessoa com essa música há dois dias!
É do José Messias, mas ouvi a Marisa cantando... aí tive que mandar rs.
Isso brilha. Você brilha.
Meu amor mais lindo do mundo! :)
E que mais é preciso ser? Quem mais importa ser?
Amor, e mais nada.
muita rasgação de seda, menina. nostálgico... nostalgia inocente, eu diria. não isso queria dizer qualquer coisa da qualidade da peça.
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