26 junho 2008

Last Request

Um dia difícil, eu tive. E não sei se as coisas só deram errado para que pudessem melhorar mais tarde ou se a única coisa que valeu foi depois, quando ela chegou. Toda a frustração das oito horas anteriores às oito da noite passou num segundo, quando a única coisa que eu quis foi te abraçar.

Achei que a chuva viesse hoje. Receei que o frio viesse mais forte porque não havia ninguém que m’esquentasse o pescoço ou acarinhasse a nuca... Protegi-me com o cachecol preto, vesti uma blusa quente e vermelha, escondi as unhas também vermelhas com luvas e calcei o All Star. Era branco, quase tão branco quanto a folha de papel em que eu t’escrevo agora.

Todas as minhas ações de hoje tinham um pouco de você. Todas as pessoas, todos os cantos, todos os encantos. E no meio de brigas sem propósito algum, você fez feliz quando, por um segundo, fechei os olhos e lembrei do primeiro dia em que eu m’encantei por você. E por esse sorriso gigante, essas bochechas rosadas, esse cabelo bonito, esse ciúme querido... Toda essa lista sem fim de pequeninas coisas tão somente suas, tão grandes para mim.

As ruas estavam cheias, elas realmente enchem de gente no inverno e eu sei o motivo: as pessoas se abraçam mais no inverno. Talvez para enganar o vento, talvez porque não tenham a vergonha que se vê no verão quando todos se afastam, o contato físico é infinitamente menor e não se vê a Rua XV cheia de formiguinhas abraçadas tomando vinho quente. Tudo tão bonito que chego a pensar: meus sentimentos só costumam aparecer no inverno. Um romantismo escondido curitibano que adora os cachecóis e detesta o calor não-humano do verão.

Eu tinha um livro nas mãos ("Aos Meus Amigos", uma história bonita), acaso as coisas demorassem e eu precisasse mesmo esperar. Tudo bem, esperas são realmente valiosas quando se espera por algo tão essencial. E não importa a altura, o peso, a quantidade e nem ao menos o conteúdo do que se espera. Se houver carinho, se houver sentido, espera-se até o ar.

Passava das oito horas, a lua no céu, o vinho quente nas mãos dos namorados e eu. Ali, lendo e tornando a espera ainda mais bonita. E quando chegou, só consegui sorrir e agradecer. Se eu tivesse os teus olhinhos d’estrelas, eles teriam brilhado junto da lua no céu. Sorri, e sei que esse sorriso podia iluminar mais que o sol porque era um sorriso de felicidade. Tive você ao alcance das mãos e dos olhos, até da voz, se quisesse. Mas não consegui, você roubou todas as palavras que eu tinha e voltei para a casa assim, calada. As pessoas olhavam e eu sabia de alguma forma que conseguiam ler o que eu pensava, admirando a cidade escurecer pela janela do ônibus: a vida é doce.

Não pedi que o tempo passasse rápido porque aprendi que a espera pode ser linda - e realmente foi. O tempo chegou e foi agora, há alguns minutos atrás. Tempo em que eu quis, mais que todas as vezes,
te abraçar.

Te abraçar, meu maior amor de todos os invernos.

Nii

16 comentários:

Filipe Garcia disse...

Doces são suas palavras que fazem qualquer coisa parecer bonita. Me inteirei desse sentimento gigante vivido pela personagem, vivido por cada um de nós. Seu texto é um convite, Nina. Seu texto é a poesia requisitada nos momentos de solidão.

Um beijo, poetisa.

Patrícia disse...

Esperar é uma arte.

:: Fatima :: disse...

Nossa!Que lindo isso!
o amor esta no ar...
Fiquei ate emocionada!
Bjos e felicidades sempre!

_peron. disse...

já dizia uma pessoa que nunca foi minha, pra eu não ter pressa da juventude.
não tive. não tenho,hoje.
nunca a tive. mas tive um tempo nosso.
o tempo.

Germano disse...

Nina,

passei por aqui e gostei do que li e vi.

Deixo abraços pernambucanbaianos sinceros.

Germano
www.clubedecarteado.blogspot.com

Clara Mazini disse...

Sempre que eu passo por aqui encho o peito de uma alegria cheia de letrinhas...

instantes e momentos disse...

lido post, lindissimo blog.Parabens, gostei daqui

Mayara disse...

[tô a horas lendo e relendo esse post com medo de quebrar tudo em mil pedaços e estragar tudo de lindo que você escreveu]

Lu (- . -)... disse...

Primeira vez por aqui e achando tua escrita extremamente envolvente...
Bom te ler menina, voltarei por aqui outras vezes...
Parabéns...
Até!

a clara menina Clara disse...

é impressionante, sempre.
sempre.
seempre.

tatisgfernandes disse...

parei aqui e adorei as palavras, os sentidos...

Larissa disse...

tow apredendo a gostar mais do invernooOo!!
bjosss, lindas palavras.

Lais Mouriê disse...

Lindo e doce! Tão gostoso de ler!!!!
Bjao e saudade!

Indh disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Indh disse...

Lindo, lindo.
Lindo que, nesse meio-inverno de Minas Gerais, aquece o coração de quem lê.

L. disse...

é doce. sete vezes doce.