10 fevereiro 2008

"E você também é Sophia, sabe?"

"Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas."
Sophia de Mello Breyner

Para Nathália de Ávila, em uma noite bêbada curitibana:

Ô Bailarina, queria ter braços longos pra te alcançar. Que os meus braços cresceram, mas continuaram pequenos, eles crescem e eu diminuo dentro desse mundo cheio de coisa. E eu só queria te abraçar, porque abraçar é dizer que se gosta, acontece que eu te amo. Acontece tanta coisa sempre, que dá vontade de ter tendo vontade de. Ai, essa coisa de corpo dormente que eu tenho, eu queria mesmo era sair do corpo, tu já saiu do corpo? Eu já, foi num dia no palco, eu dancei e só sei que foi assim, eu saí e depois voltei, foi bonito. Se eu te conhecesse, eu podia lembrar e até te levar comigo, a música era bonita e tudo bem, há tempos em que a gente deixa o palco um pouquinho, é aquela coisa de amar agora e guardar tudo pra depois - um dia eu entrego amor em saquinhos pras pessoas. Vou te dar uns dois, pro caso de um dia, faltar saquinho no mundo. Aí em Minas tem saquinho de amor com pão de queijo, eu te faço um com leiTE quenTE. Engraçado eu falar em leite agora, há dias que eu não bebo leite - devo estar bebendo cerveja demais. E eu saio do corpo, tem gente que não tem responsabilidade. Eu tenho, bebo e saio e volto, eu nunca caí. Só caio sã, aqueles tombos de amor que a gente aprende a cair logo criança, ou quando um amigo empurra a gente e joga em algum lugar feito brinquedo que não quer mais. Mas sabe, Bailarina... Quando tem música, o tombo é quase um passo de dança, coreografado, majestoso, cena final de filme francês. Hollywoodianos, desculpem, somos todos Amélie Poulain. É que eu queria te dizer um monte de coisa, mas a minha cabeça tá girando e eu não sei por onde começar, as coisas dizem e eu escrevo e meus olhos te vêem, mas a tua voz, eu nunca ouvi. E o teu nome tá sempre quando eu fico feliz, ou quando eu fico triste ou quando eu sorrio ou quando eu choro, um choro assim, miúdo, calado e amuado. Lagriminhas letradas, uma coisa que eu nem sei explicar, bêbados não explicam. Amor se explica? Poxa, eu nunca te vi, eu nunca fiz cócegas e nem fiz rir, eu nunca. Sabe, que tem dias na vida da gente que vêm e mudam tudo, eu queria ter dias todo dia assim. Tu queria? Eu queria que a gente dançasse juntas, eu não sei dançar, mas quando a música toca e eu levanto os olhos e eu levanto os braços e eu levanto a alma, eu sou e eu quero, é o céu que fica chamando e eu quase alcanço, sabia? Acho que tu moras no céu e nunca me contou. Quando descer aqui pra Terra, vem pra cá? Eu prometo que não bebo mais e que te toco todas as músicas do meu Media Player e até te canto em todo o canto. Eu sei cantar, sabia? Sabia? Sabe que eu até te cantarolei Oswaldo Montenegro, uma vez. E eu acho que foram duas, ou três, ou cinco, ou é. Eu fico nervosa só de pensar que tô dizendo bobagem. Poxa, assim, depois que o álcool que me deram subiu, eu nem parágrafo, sei fazer mais. Droga, eu gosto tanto de parágrafo e eles estão me chamando, coitados, eu abandonei, mas eu abandono todas as regras de escrita pra t'escrever, Bailarina. Tá tudo confuso, tá tudo desconexo e eu lembrei que na vida, a gente tem que ter coesão. Esse troço, aí, eu nunca tive, sempre falavam disso no cursinho, deve ter sido por isso que eu reprovei duas vezes no vestibular. Saco, eu sei escrever, tô escrevendo pra alguém importante agora, isso é o que importa, né? Alguém importante que importa, é só isso. Porque ninguém sabe o que significa pra mim e o que fez quando entrou em mim, assim, desse jeito escrevendo. E entrando. E sorrindo. E sendo. Porque sabe, ela só é, e eu sou só. Mas quando eu escrevo essas coisas a ela, puxa, que parece que eu fico tão grande, dá até pr'alcançar Minas Gerais. E se eu der mais um passo, só um ou dois, eu entro dentro do coração, escuto o Tom e a Gal e o Oswaldo e os Caetanos e as Ninas e os amores cantarem lá dentro, bem dentro do coração bailarino musicado da menina que é gigante. Se eu fosse mais mulher, eu diria que é gente assim que deixa o mundo mais bonito, só que eu ainda sou moça e ela é gigante, eu já te falei. Gigantes crescem mais rápido e quando a gente vê, lavaram o mundo de boniteza. Eu só sei lavar o rosto quando eu choro, sabe, eu tô lavando agora, o rosto cheio de saudade e cheio de amor. De boniteza, eu só tenho o sentimento, eu acho que ele não precisa nem ser grande pra ser bonito, é só ele ser de verdade, que já vale. E não é valor em ouro, não, é valor dentro da gente e pra fora dos outros, quer dizer, pra fora de mim e pra dentro da Bailarina. E que todas as paredes e todas as letras e todas as confissões e todos os bêbados e todas as vidas e todos os mundos vivam música e virem música e sejam música e cantem todo esse amor comigo, porque ele é tão amor, que quer rodopiamAR.

29 comentários:

enailuj disse...

Ai, coisa mais linda. Bailarina sempre tem um quê de ser transcendental, eu sempre imaginei as bailarinas como 'pessoas' que andavam na ponta do pé o tempo todo, acima de todos, sabendo a verdade maior que ninguém mais sabia. Talvez a tua Bailarina também saiba.
:)

(e sou obrigada a passar esse texto pruma amiga minha, porque tem tão a ver, tem muitomuito a ver com o que ela tá passando agora!)

a clara menina Clara disse...

Primeiro vem o sorriso só de ver que aqui tem letrinhas novas.
Depois vieram as lágrimas por só tu saber tocar em pontos guardados a sete chaves por aqui e traduzir de uma forma absurdamente linda as coisas que eu não consigo dizer.
Mais sorrisos, rodopios.
Ô Bailarina,canta, ama!

você é inexplicável.

beijo!

Filipe Garcia disse...

Que coisa linda, meNINA!! Vou ler esse texto mais umas duas ou três vezes, tem tanta coisa que mexeu comigo... tanta leveza, tanta sinceridade, tanta poesia... dá vontade de chorar...

vou te linkar, quero ler-te mais vezes

bjo

Filipe Garcia disse...

li pela segunda vez. Tô insatisfeito, minha alma ainda não captou tudo. Obrigado, sinceramente, pelo prazer de ler-te. Vc é incrível.

bjo

Lucy disse...

*abraço*

Mr. Ziggy disse...

Sim, Nina, a Nathália d'Ávila é linda e encanta a gente! É minha sobrinha do coração, com quem há uns 3 anos venho rindo junto, falando sobre várias coisas, respirando arte.

Que bom que essa amizade te inspira e faz com que de um jeito tão peculiar você transforme tudo isso em poesia! É uma essência curiosa, brilhosa, transbordante!

Bjos mil e obrigado pela visita, pelas palavras lindas! É sempre um prazer te ter nas bandas de lá. Inté.

Carla Gomides disse...

Se vc pudesse imaginar só um pouquinho o tamanho da minha alegria em entrar aqui e ver que há mudanças no quintal...
Se vc pudesse mesmo, vc teria que triplicar essa alegria que toma meu coração após brincar com todas essas letrinhas na grama ainda mais verde, esperando dona nuvem...

Ninaaaa a menina gigante é vc!! Vc tem super poderes... atira raios coloridos em forma de letras. E esses raios atingem o coração. Em vez de morte, suspiros de vida.

É dificil eu te explicar o que acontece. Comigo as letrinhas as vezes se embolam.
[tentando]... é como se vc escrevesse sentimentos bem proximos aos meus. porém em linhas tortas, rsrs

Volto logo!!

Beijos

|Thamires disse...

me encanta a sua bailarina!

;*

Mayara disse...

e tão lindo que da medo de comentar e quebrar tudo isso...

Thaís disse...

E tu foi majestal nas palavras, apresentação no Municipal que há dentro da gente. Leveza de bailarina que não cambaleia mas que deixa a musica jogar. E encanta, menina como encanta!
Lindo lindo
bjo

Ju disse...

nem sempre a gente tem que ter coesão nassa vida! às vezes é bom viver como quem escreve um texto desparagrafado, com as emoções potencializadas pela embriaguez. é para poucos, mas quem se permite experimentar sabe o gosto bom que tem...
beijos, menina bonita.

junkiecareta disse...

Muito bonito o seu texto. A espontaneidade e urgência, me lembraram Caio Fernando Abreu. Como lembrou inteligentemente a Ju acima, falta de coesão é fundamental na poesia e na vida.Aliás,não foi o mesmo Caio quem disse que viver transcende qualquer explicação? Viva o desparágrafo Clariciano, CaioFernandoabreuzices. Sou um amante das letras e também um pseudo- poeta que escreve uns borrões. Quando tiver um tempo, passe lá pra conhecê-los.

http://spleen-rosachumbo.blogspot.com/

Parabéns.

N. disse...

finalmente eu consegui comentar.
a maior felicidade do mundo é ser tua bailarina. seu texto ja ta indo pra minha parede. eu ia pintar tudo de verde, sabe... mas nao. isso seria apagar ENLOUQUECER OU DELIRAR e borrar de tinta umka fase tao linda da minha vida: que foi quando a gente se descobriu. quando num 8 de julho que ue nunca vou esquecer, dancei Tom Jobim e tudoédançacontemporanea ficou tão evidente na minha vida. e você tava lá, aplaudindo. e tava lá, dançando comigo. e ta aqui em caio e aqui, com lis-no-peito. é onipresente, e guia e ajuda a viver. mas a gente é perdida mesmo né, pois acho que fiz de ti (ou voce fez de si, pra mim) um tipo de deusa e meus queridos, a minha deusa é a mais poulain e boêmia do mundo. aí eu vivo. com você. aqui e lá. no aplauso e no palco. no rodopiamor.

te amo, nina.
nunca vou cosneguir agradecer o suficiente pelas palavras.

to indo embora domingo, respirar Sophia um pouco mais... vai soar philosophia e eu vou lembrar da de Mello, dos Miguéis, vou lembrar de Nina. Vou lembrar da poesiaemprosa que ganhei de ti. e Da poesiaempessoa que ganhei do mundo.
Ganhei quando te conheci.

K.C disse...

eu sempre acabo assim, caindo num blog q me faz ler por horas. E sempre é o mesmo clichê, deixo algum recado só para não parecer tão evasiva.!

Gostei do que eu li, gostei MESMO. Mais ainda do que aí por dentro.

(...) Bê disse...

Ah! Eu só sei que gosto daqui. Gosto pelas visitas que me deixam mais feliz; pelas palavras que leio, e às vezes chego até a ouvir o tom da voz que fala através delas; pelo arzim de leveza misto de intensidade que sempre paira aqui; gosto porque amo aqui, amo a Nina, amo suas letrinhas, amo o amor..e a música e as artes...e as suas letrinhas de novo, que fazem o amor ficar mais bonito, bonito demais da conta :)

Clara Mazini disse...

Que prazer chegar até aqui. Dá vontade de ficar pros vários tempos.

A Procura. disse...

Ai ai, lindo demais, como tudo que você escreve :]
Adorei as citações, Amélie Poulain, Oswaldo, perfeitos ;]
Dediquei um selo à você no meu blog.
hehe

Beijos;*

Gabibis disse...

Que eu também quero ser um pouco bailarina. Que eu também quero saquinhos de amor. Tambpem te dou alguns, se precisar.
Também quero abraço e cócegas. Quero que dê um salto e caia aqui, que é perto do Rio Grande do Sul, na pontinha Sul de Santa Catarina que eu moro. Quase minha vizinha que és... e tá assim longe e sempre tão perto.

Quero minha Nina amiga irmã cúmplice entendora pra sempre por perto.

Me orgulho demais de ti. Tenho amor aqui pra te entregar.
Vem logo, tá?

Lais Mouriê disse...

Fiquei sem AR com tamanha beleza! Que saudade disso tudo aqui!

Bjos, minha linda!

_peron. disse...

eu queria saber cuspir amor em forma de letra, igual você faz, sem parágrafo.
as meninas de minas são muito malucas, curitibana.
o amor de minas do bobo que é capaz de amar fica amargo igual vinho vagabundo quando a gente guarda.
quem sabe um dia eu beba uma cerveja com sotaque do sul que me ensine a fazer poesia.

Cecilia . disse...

Chorei.
Pq amo duas, as duas.

Ai.

=*

Lilah disse...

amo esse blog,eh o mais sinto falta de ler,quando to sem tempo.

pelo texto

beijo

a clara menina Clara disse...

Tá faltando as letras novas da meNina por aqui!

beeijo

Morganna disse...

me deixou feliz nesse dia nublado, tu. :*

Bárbara Matias disse...

ei!

primeira vez minha por aqui! ouvi falar desse seu jeito de escrever... ouvi falar desse teu text-poema, teu texto-obra.... tua obra-prima!

Amei...o monólogo com uma pitada de insanidade alcoolica, com uma sinceridade, uma leveza.. um conversar de vida... gostei demais da conta de tudo isso aqui! Essa bailarina...

nossa... uma complexidade de vida, complexidade boa de se entender... detalhada fielmente pelas suas palavras...

vou, com certeza, vir aqui mais vezes! e vou ler os outros textos depois, ta?

Bjim...

bossa_velha disse...

meu Deus - é tudo o que posso dizer.

Larissa Santiago disse...

sabe quando você começa a ler e não pára de chorar?
perfeita dor...

RABELO, Aline disse...

depois de ler tanta coisa linda, em todos os seus textos, uma unica coisa me vem à cabeça (e como sempre, devido à falta q me faz o você-lírico, essencia da minha poesia, essencia do meu amor, sao versos alheios):
"eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar..."

nao sao versos novos... muito pelo contrario, esses versos ja sao velhos conhecidos. a diferença é que nesse exato momento eu os sinto de uma maneira tao intensa, tao forte, tao verdadeira, tao cheia de convicçao e certeza, que talvez nem mesmo o proprio vinicius se sentia assim ao escrever-los!
nao... "talvez" nao: o poeta vinicius nao chegou a sentir nem 0,000002 nano-milésimos do que eu sinto agora, esse amor q derrete todas minhas estruturas, minhas defesas, minha razao... e é claro, derrete meu coracao.
um sentimento assim tao abrasador quanto o calor que existe nos braços do meu homem, e é por esses abraços que tanto tenho esperado...

RABELO, Aline disse...

só pra reforçar:
"EU SEI QUE VOU TE AMAR, POR TODA A MINHA VIDA EU VOU TE AMAR..."
é, eu sei!