14 outubro 2007

Todas as cartas de amor são...

"(...) Não seriam cartas de amor se não fossem (...)".
Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa


Curitiba, 14 de outubro de 2007.
Minha querida,

É dia quatorze, já passaram anos, sinto saudade.

Quando eu era pequena, não tinha muitos amigos. As coisas eram um pouco difíceis, mas eu sempre andava com os braços ocupados - livros de figura no bracinho direito e pipoca doce no bracinho esquerdo. Eu lembro bem, a senhora lembra? Todos os dias, os bracinhos ocupados e te levava uma flor.

Eu era a primeira da fila na hora do Hino Nacional, mas a senhora sabe, eu não era a mais baixa da turma - talvez, a mais interessada. Fecho os olhos e tenho aquela mesma imagem do "ouviram do Ipiranga às margens pláááá-ci-das!", a bandeira hasteada e o vice-diretor alto, magro, postura firme e olhos atentos. O diretor baixinho, careca e Arnaldo sorrindo para mim. A senhora também sorria, mas era um sorriso do lado de dentro. Eu sabia, cantava e tinha as mãozinhas no peito em sinal de respeito e amor por tudo aquilo que era o país para mim. Mesmo com a pouca idade, amava toda aquela letra e melodia, o verde-e-amarelo lá no alto... Brasil, Paraná, Curitiba, escolinha.

Parte essencial da minha vida naquele lugar e ele ainda está lá, intacto às minhas lembranças mais bonitas - e mais doloridas. O mesmo tio da pipoca que agora, já é vovô, a mesma biblioteca que agora, um pouco menor. Queria tanto morar naquela biblioteca! Junto das minhas figuras, da minha bruxinha, das prateleiras em que eu m'escondia quando ficava triste... Era lá que a senhora m'encontrava, as lágrimas correndo de desgosto e vergonha por não ser a menina mais querida da turma, exclusão por ser a menina que sentava na carteira da frente, usava óculos, lia, escrevia, poetizava e quase não sorria quando havia crianças por perto.

A senhora lembra de quando eu precisei de aulas particulares da sua irmã porque não conseguia fazer "continha de dividir com dois números na chave"? Puxa,  eu nunca fui boa com números, foram diazinhos difíceis e a sua irmã era difícil também. Ah, desculpe, ela era muito bonita e inteligente e tudo e tal, mas é que ela perguntava a tabuada do sete e eu nem podia contar nos dedos. Ela tinha um nome estranho, os cabelos loiros e bonitos, mas o resto, eu esqueci.

Eu nunca soube nada de Matemática, então, esses dias, sonhei com a minha primeira aula de verbos, foi tão bom! Ninguém tinha gostado, porque Português era coisa que ninguém gostava. E eu respondia todas as perguntas e me sentia feliz-feliz, porque é bom saber essas coisas de presente e futuro e passado, podia ser algo importante e eu tinha aprendido, uau! Eu nunca mais fui a mesma depois daquela aula sobre verbos...

E aquele piano bonito na sala da sua casa? Sempre disseram que eu tinha mãos de pianista, mas opinião de mãe não conta, acho eu. É que os meus dedos são compridos, mas só sei usá-los para segurar a caneta e fazer carinhos. Nem violão, eu aprendi a tocar ainda, que vergonha! Aquele violão que eu ganhei, coitado, nunca tocou uma musiquinha.

Meus cabelos não são mais loirinhos e encaracolados. Já tiveram cor de laranja, de cereja, de vinho, já foram até pretos, feito os seus. Os seus cabelos ainda são pretos? O seu rosto continua com a mesma expressão forte e doce, ao mesmo tempo? A sua pele continua macia? O seu sorriso ainda tem brilho, as suas mãos ainda sabem fazer carinhos? E o seu abraço, que tamanho ele tem? Será que eu ainda consigo me enfiar no seu peito, mesmo depois de grande? E a voz, continua fina, a risada baixa? Eu quero ouvir a sua risada baixa, logo.

Pois é, tantas coisas mudaram, garanto que meu sorriso e os olhinhos fechados continuam os mesmos. As dores atenuaram, os livros ficaram maiores e hoje, já não têm tantas figuras. Confesso que aprendi a dividir com dois números na chave só por esses dias, mas nunca contei a ninguém. Ainda gosto de cantar, minha voz melhorou um pouco e não preciso mais de óculos (ah, preciso, mas também é segredo!). Não rôo mais as unhas, acho que eu era muito nervosa nos nossos tempos de convivência... Troquei a pipoca doce por paçoquinhas e não me confundo mais entre lado direito e esquerdo mesmo que, às vezes, seja difícil olhar para frente.

Sendo assim, às vezes eu olho para trás e enxergo tudo outra vez: a menina feia, franzina, quieta e estudiosa passava os dias ajudando os coleguinhas na colagem, pintava flores no papel e escrevia, a seu modo, cartinhas a quem amava. E sentia amor por tanta gente, que as mãozinhas eram só sentimento e a vida era só uma vergonha de dizer.

Houve dias tristes, dias em que cartas e as suas estrelinhas de "parabéns!" na folha do caderno não adiantaram - as outras crianças não sabiam ler corações naquela época. Eu abaixava a cabeça e tampava o rosto com os livros que tanto eram refúgio, sabia que ali havia amor puro, e só. E sei que esse coração grande entende o que eu escrevo, sei sim.

Será que aquelas crianças associavam (falta de) beleza física e dor? Sempre busquei respostas nos livros, eles estão comigo até hoje. O menino que chutou meu peito com força e sem motivo foi embora, a camiseta branca foi lavada e a marca do tênis sumiu. O grupo que todos os dias roubava meus lanches, gritava, xingava e escondia a lancheira vermelha, nunca mais apareceu. A menina que ria de mim, sumiu. Todos sumiram, a Literatura continua aqui e eles devem estar em algum lugar, chutando e rindo de alguém menos bobo, mais bonito que eu...

A vida, a senhora e o mundo sabem que sim, eu cresci. Posso encarar qualquer um desses rostos e hoje, certamente, nenhum deles é mais humano, sorridente ou inteligente que eu. Porque eu aprendi com os livros e a Clarice e o Vinicius e o Quintana e o Machado e o Drummond e a Cecilia, até com a Bruxa Onilda, e não há melhores professores que eles, não. Eles, eles e a senhora m'ensinaram a ser gente. Obrigada por isso, eu nunca na vida, vou esquecer.

É que agora, tia, as minhas mãozinhas finas cresceram e eu consigo bater - na alma, no coração, bem fundo, que é onde dói mais, muito mais.

Daqui a pouco será quinze de outubro. O doze, Dia das Crianças que cresceram já passou para virar Dia de Professora Vera dos olhinhos de jabuticaba.

A você, um amor imenso e os mesmos abraços&flores do primeiro dia, há exatos quinze anos atrás.

Talyta Antunes
(tua aluna no Pré-Escolar I e na 2ª Série do Fundamental,
futura estudante de Letras porque você existe.)


17 comentários:

Mayara disse...

ai que lindo! =´)
e agora que eu fui me tocar que o aniversário da antonina e bem no dia dos professores...
mais tem professores melhores que a claricinha e a bruxa onilda?!

acho que não...

eu tmb tô com muitas saudades eas coisas antoninalisticas...ai ai menina não pode sumir assim!
são tantas emoções!

um bju queriuuuuudaaaaaa!!!

=****

~universo paralelo~ disse...

aah brigada pela visita.!
:D
teu blog eh lindo, e os textos realmente muito bons.!
=]

Beijos.!

ferz disse...

que lindo, nina.
daqui a uns anos vai ser dia dos professores e a professora dos olhinhos fechados vai ganhar várias flores, cartas e beijos! ;)

Nathalia disse...

...sem nemter o que falar....

Mr. Ziggy disse...

Ai, que vontade de ter sido da sua sala! Acho que daríamos belos amigos... Eu era mais ou menos assim no grupo, mas as coisas mudam e a gente vence. Deus te guarde e conserve em você a menina simpática apaixonada por livros! Até.

Milene disse...

Nina,

Estou aqui a chorar.
Por um dia tbém ter sido essa menina,
e por hoje tenrar ser um pouquinho daquela professora.

Ai Nina!!!!

Camila Ribas disse...

Nossa, que coisa mais linda.
:~

Gabibis disse...

Eu ainda não sei dividir com dois números na chave.
Minha lancheira era vermelha.
Eu não era a primeira na hora de cantar o hino, mas uma vez eu fiz o desenho do Tiradentes mais lindo da escola!!
Eu levei um chute (mas o menino não estava de tênis, mas de botas e esporas de dançar chula, que era dia de folclóre na escola) na barriga e um soco nas costas que me trincou uma costela.
Sempre fui quieta e adorava a biblioteca.
Era estudiosa a meu modo e sempre ajudava os coleguinhas...
Na sengunda série aprendi a não deixar as crianças caçoarem de mim pq eu era magricela e doente.


e tem mais e mais e mais coisas... mas eu sei que tu já sabes de tudo.

sem mais palavras... me faltam quando o nó chega na garganta...

Um beijo!

Bruno disse...

...ridículas? Ah, acho que não. Esta aí, por exemplo, tá tão bonita!

Passei bons momentos lendo, lembrei de várias coisas da minha infância, obrigado!

Beijo

Natália Nunes disse...

Você faz umas homenagens tão tão lindas, Nina!
Sua professora tinha que ler isso! Com certeza, ela seria mais feliz na vida ao receber um beijo de alma desses.

Eu também lia a bruxa Onilda.
:D

Beijão!

Karla Jacobina disse...

Nina,

Eu já tinha te visitado antes. Mas que mania feia de não deixar comentários, é essa?! Como se os braços estivessem ocupados até hoje de livros de figura e de pipocas doce.

O hino a gente canta em voz alta, mas tem muitas outras vozes que a gente canta em silêncio.

Beijos!

*

Karla Jacobina disse...

Re: à vontade, à vontade, à vontade.

Gabriele Fidalgo disse...

Que coisa mais linda!!
Aliás, me pergunto agora porque fiquei tanto tempo sem vir aqui. Suas palavras são tão leves, tão lindas!
Lindo Lindo!!

beijos.

ps: Postei a última parte hoje.
Demorei porque ainda estava escrevendo essa parte. rs
brigada pelo coments.
=**

a clara menina Clara disse...

ai que cartinha linda!

e chuchu, aquele amor todo do post é meu, só meu, que tem dentro de mim. Num é aquele amor azul tranquilo, não mais aquele, ele mudou pra azul vibrante, inconstante. Todo aquele azul imenso e tranquilo foi levado com o menino que cruzou a estrada que eu ando, agora tem só a minha aquarela, as minhas cores. E era desse amor que eu falava lá, das descobertas de uma quinta-feira à tarde em pleno pôr-do-sol. Da vida e das transformações que dá vontade de só dizer: 'sorria, meu bem, sorria!'

beijo, dona moça bonita.

Lais Mouriê disse...

O talento é mesmo desde pequetitita! Ô lindeza essa carta!

Bjos, Ninita!

yara b . disse...

ai, que linda essa carta!
sabe, nina, eu ainda lembro perfeitamente da minha professora do pré, tia bella.
e vezenquando eu ainda passo pelo portão da antiga escolinha e me vejo lá.

ai ai...

Claudia Lis disse...

Ninoca,

Lembranças e mais lembranças de todos os conflitos infantis (e bastante sérios por sinal) que vivenciávamos na escolinha. Ai, ai Nininha... Eram medos, vergonhas, sonhos, curiosidades e é claro, mil novidades a cada dia, que nos faziam brilhar os olhinhos. E agora, dez, quinze anos depois tudo isso continua, porém de forma mais séria e sólida. E tudo isso me faz pensar o quão simples a vida era, tão cheia de cores, formas, texturas, cheiros e gostos e que agora quase não temos tempo para perceber. Mas é claro, cada fase da vida tem o seu brilho, que é insubstituível. Não gostaria de ser criança para sempre, mas gostaria que cada fase durasse um período equivalente a uns 50 anos. Creio que aí daria para matar a vontade melhor, heheheh...

Ah e o seu texto lindão e cheio de carinho, me lembra aquele trecho de “Se a vida é” dos Pet Shop Boys:

“Life is much more simple when youre young”

=)

Beijo