08 maio 2007

Enlouquecer ou Delirar

Por vezes, sou um ato falho.
Às vezes meço, e as distâncias são tão pequenas que seguem as linhas da palma da mão. E não me refiro a longas distâncias, quilômetros cheios de riscas brancas no chão, onde não há mão alguma para se segurar. Refiro-me às distâncias realmente poucas, aos metros que compõem curtos espaços, cabem em fita métrica esticada.
Queria saber quantos passos cabem dentro deste quarto. Quantos braços abertos conseguiriam exprimir amizade dentro destes azulejos e, ao acaso, quantos correriam em cima da cama, brincando de pega-pega.
As crianças pulam ao lado da janela, o vidro aberto dá a sensação de perigo, mas o vento invadindo o apartamento traz toda a liberdade que preciso para voar. E há várias maneiras de voar: jogo papéis escritos por onde passo.
Talvez, certo receio de tentar; o caminho de volta não permite igual (re)começo. Medo de que as riscas no chão não indiquem mais por onde se deve seguir, de que poucos toques terceiros tranquem as pequenas estradas. Mas caminho, assim, com os dedos das mãos todos seguindo as riscas de cimento que encontro nesse esticar de braço alcançando, leve, os traços dividindo os passos em azulejos.
Um dedo, dois dedos, forma de gente andando feito bebê aprendendo a andar. A outra mão, aos poucos, acanha e cambaleia - esquerda não tem certeza se consegue continuar. E juntas, as duas, num ballet quase imperceptível, não fosse pela música no aparelho ao lado. Meus cabelos que formam o vento, cor de Mediterrâneo, esvoaçam e despedaçam meu medo com todo o cuidado. Coração acelerado faz as vezes de palco, arrebata e bate, descompassado, feito tambor e batuque da estréia. Unhas crescem e pés saltam, tudo é dança contemporânea. Tudo é conterrâneo, a fita métrica se finge de laço colorido, voa pelo ar como atriz principal, faz entender que Curitiba é muito menor que toda essa gente dormindo no condomínio ao lado.
E todos os passos que eu der juntando mãos e dedos, podem sim, acabar em abraço. Que eu não feche as portas de lábios sorrindo para cada reencontro - e em cada despedida.
Não estranhes, bela atriz, se eu disser que te adoro. Não te admires, caro amigo, se sorrisos disserem calados que sim, sinto falta. Não te acanhes, precioso diretor, se o relógio couber na tua palma da mão. O tempo é teu.

Não te esqueças, meu refúgio penopalquiano: eu só posso viver com você. E recebe-me de volta contigo, um dia, piso no teu chão e beijo teu cada canto. Poso de bailarina e danço, ainda, ao som do teu compassar.

10 comentários:

kleine kaugummi disse...

Pensei em dizer tantas coisas.
Pensei em ciciar pra ti, não,não meça, em responder qtos passos caberiam e explanar sobre a natureza macia dos abraços.

Mas nada, nada seria dito,
pq todas as pequenas respostas que se fazem grandes já estão nesse coração tão doce repleto das mais belas letras e formas.

Cabe a mim vir até aqui e provar um pouco desse amor que escorre pela ponta dos dedos dessa meninoca por quem tenho tanto-tanto apreço.

-nem sei se mereço.-

=*

nathália disse...

EU MORRI!

hahauhauhauhua

a culpa é sua.

geeeeente,depois eu comento, direito! i swear!

yara b . disse...

tua última frase poderia ser assim:

de yara, para pedro.

[...]

Um simples querer composto disse...

eu tô absurdamente sem palavras pra escrever aqui.
coisa mais linda do mundo!
eu só espero que todas essas letrinhas e toda essa coerografia vire vida, ato.

=*

clara

Bena disse...

se quiser nina, te mostro meu compassar pra vc continuar dançando..

Mayara disse...

lí esse texto umas três vezes e fiquei pensando no que escrever pra você eu achei melhor ficar no silencio pra não estragar de tão delicado que está!
tá lindo!

continue os rodopios pelo salão! =)

bju!

nathália disse...

é sabado a noite que eu tinha que ler teu texto de novo prá ficar feliz

Lais Mouriê disse...

Estou embasbacada!!!!!Que coisa mais linda!!!! Senti os dedos no abraço, os vizinhos dormindo no prédio ao lado, o sentimento que pairava no ar!!!!! Um sonho de escrito!!!!!

Com lágrimas nos olhos, em emoção!

Bjooos Ninoca que emociona a Lá!

Patrícia H. disse...

É quase um filme, ou uma cena de um filme. Daqueles filmes de que nós aqui gostamos, em que os silêncios dizem quase tudo...

E são sempre tão fortes e delicados esses filmes...

E os teus textos sempre me jogam de volta ao meus sentimentos mais escondidos e frágeis e bonitos até...

Ler teus textos é o prazer diário a que me dou direito.

Então agradeço pelas letras, pelas palavras, pelas cenas, por você existir e ser tão única.

thaís disse...

'Queria saber quantos passos cabem dentro deste quarto. Quantos braços abertos conseguiriam exprimir amizade dentro destes azulejos e, ao acaso, quantos correriam em cima da cama, brincando de pega-pega.'
qual seria a graça nisso tudo?
a gente nem ia poder tentar adivinhar..ia perder a graça.
o bom é o adivinhar, a expectativa, essas coisinhas, sabe?
não queira pular essas partezinhas..aproveita aos pouquinhos..no final, vai vir um ato completo. :)