08 março 2007

Em Círculos

Ia pro carrossel aos domingos. Em segredo, que nenhum adulto podia saber pr'onde ia. Domingo era dia de cor, e quão prazer tinha em ver flor espalhada pelo parque! Era cachorro sem dono que corria, era bola quicando pra lá e pra cá, eram os olhos dela brilhando em livro e carrossel, era bom. Mas ela, logo ela, tão forte, tão sorriso, tão tudo, nunca ia. Tanto movimento, sempre gostou de assistir (o "sempre" dela já durava três semanas!) todo mundo.
Só reluzia aquela menina loirinha e sentada sob o sol. Era só ela que reluzia e de tanta concorrência pro tal do amarelinho lá no céu, aquela garota causava ciúmes com o cabelo. O sol também refletia no carrossel, embora as cores fossem coloridas e o amarelo, muito mais escuro.
Loirinha rodopiava. Tão livre quanto um passarinho sem ninho certo pra voltar, feito flor desabrochando rápido pro mundo,

feito criança escondida dos pais.

[...]

Naquele domingo levantou cedo cedo, tinha pouco tempo antes que acordassem. Colocou o short mais confortável, o preferido. Era vermelho, da cor do lugar vermelho no carrossel, o preferido. Foi a pé, eram só cinco minutos, mas pra ela, livre, astuta, peito aberto e estufado, pareciam cinqüenta. Sozinha, atravessava uns poucos metros de grama em quilômetros de liberdade.
Sentou, deixou o livrinho de lado, sempre esperava a sua vez pra poder brincar - era boba. Ninguém esperava por ela, todos aqueles guris metidos achando que eram donos do mundo, aquelas meninas cheias de laços e fitas, cheias de mães que as levavam pr'um carrossel... Cheio. Cheio demais. Carrossel era dela. O livro que se perdesse, que se perdesse.
Gritou, socou, chorou.
Meninos e meninas eram todos iguais - e só o sol podia entendê-la naquela hora.
Em casa, contou tudo. Segurou, se fez forte, só ganhou um "tudo bem". Antes tivesse ganhado um tapa; meninos sim, eram todos iguais - e só agora, ela entendia.
Carrossel pouco pra tanta criança, mundo pouco pra tanta liberdade, lugar pouco pra caber tanta menina-loira, gente pouca pra ver.

Chegou segunda-feira. Não coube mais. Cresceu ao contrário.
E virou menino por dentro.

7 comentários:

yara b . disse...

mas depois de uma semana, vem o domingo de novo.

novo.

Alfaia disse...

crescer ao contrário nem sempre agrada todo mundo.

tem até nome isso.

preconceito, se não me engano.
:)





belo texto.
belo blog.

Menina Flor disse...

Domingos...são sempre iguais, aquele cheirinho de nostalgia.
Será que só o meu domingo é assim?


Meninos, meninas...no fundo todos iguais, por fora superficiais.

Laços de fita e vestidinhos rendados não são nada quando por dentro se é lixo.


E com as decepções? Aprendemos.

Belle disse...

por isso q na maioria das vezes eu prefiro só olhar.
as vezes a desilusão é inevitável.


=********

thaís disse...

é bom as vezes crescer ao contrário.
mas melhor ainda é externar tudo isso..não só virar menino por dentro, e sim, virar por completo, ser inteiro.

:)

beijos moça!

Lais Mouriê disse...

Domingo é dia de cor
Segunda de crescer ao contrario...
Mas todos os dias são de viver vc! Colorida ou ao contrario...tanto faz

Amei

Bjos

Um simples querer composto disse...

espero que o domingo chegue logo, pra ela tentar virar menina de novo e sentir aquela liberdade dentro do peito.

beijo pra meNina que me faz sorrir quando escreve.

clara